Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

Momento – Mário de Andrade

(Viaduto do Chá, São Paulo antiga, data e autor desconhecido)

Ninguém ignora a inquietação do clima paulistano. . .
Pois tivemos hoje uma arraiada fresca de neblina.

Depois do calorão duma noite maldita, sem sono,
Uma neblina desprendeu das nuvens lisas
E pousou um momentinho sobre o corpo da cidade.
Ôh como era boa, e o carinho que teve pousando!
Não espantou, não bateu asa, não fez nenhuma bulha,
Veio, que nem beijo de minha mãe se estou enfezado
Vem mansinho, sem medo de mim, e pousa na minha testa.
Assim neblina fez, e o sopro dela acalmou as penas
Desta cidade histórica, desta cidade completa,
Cheia de passado e presente, berço nobre onde nasci.
Os beijos de minha mãe são tal-e-qual a neblina madruga. . .
Meu pensamento é tal-e-qual São Paulo, é histórico e completo,
É presente e passado e dele mesmo nasce meu ser verdadeiro. . .
Vem, neblina, vem! Beija-me, sossega-me o meu pensamento!

Mário de Andrade
Novembro de 1925, in “Remate de Males”

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Ronda – Paulo Vanzolini

(Cidade de São Paulo)

De noite eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar.
No meio de olhares espio,
Em todos os bares
Você não está…

Volto pra casa abatida,
Desencantada da vida.
O sonho alegria me dá:
Nele você está…

Ah, se eu tivesse
Quem bem me quisesse,
Esse alguém me diria:
“Desiste, esta busca é inútil”.
Eu não desistia…

Porém, com perfeita paciência
Volto a te buscar.
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres,
Rolando um dadinho,
Jogando bilhar…

E neste dia, então,
Vai dar na primeira edição:
Cena de sangue num bar
Da Avenida São João.

Paulo Vanzolini
(São Paulo, 25 de abril de 1924 — São Paulo, 28 de abril de 2013)

Considerado ao lado de Adoniran Barbosa o grande nome do samba em São Paulo, Paulo Vanzolini ficou conhecido pela autoria de clássicos da música brasileira como Ronda, Praça Clóvis, Na boca da Noite e Volta por Cima. Apesar de ser autor de mais de 70 músicas, Vanzolini preferia ser reconhecido pelo seu trabalho como zoólogo. Como cientista, ele escreveu mais de 150 artigos acadêmicos. Foi diretor do Museu de Zoologia, da USP, onde trabalhou por mais de 50 anos, e foi premiado pela Fundação Guggenheim, em Nova York, pela sua obra científica. Em 2008, ele doou ao museu o acervo de sua biblioteca particular de 25.000 livros, na qual colecionava inclusive obras raras, periódicos e mapas. Vanzolini nunca estudou música. “Eu tenho muita dívida com a cidade de São Paulo. É um absurdo como gostam de ‘Ronda’, mas gostam…”, afirmou Vanzolini. Fonte: Revista Veja, 29/04/2013.

Vídeo com interpretação de Márcia, uma das intérpretes preferidas do compositor.

Parabéns, São Paulo!

Elegia a Uma Pequena Borboleta – Cecília Meireles


Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que refletissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

Cecília Meireles
in “Obra Poética”, 1967

Cecília Meireles declamando o poema:

De São Paulo – Oswald de Andrade

(Av. Paulista aos domingos)

Não sei que sentimento é esse que faz com que se amem as pedras das calçadas. São Paulo nada tem fora disso. Só as pedras das calçadas. No entanto, duvido que haja na terra agarramento maior por um trecho de chão do que o que sentimos por nossa cidade.”

Oswald de Andrade
1944, in Telefonema

Exaltação – Florbela Espanca

(pintura de Frank Weston Benson)

Viver! Beber o vento e o sol! Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!
Asas sempre perdidas a pairar!
Mais alto até estrelas desprender!
A glória! A fama! Orgulho de criar!

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos estáticos, pagãos!

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas,
Com eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

Florbela Espanca,
in O livro de Sóror Saudade

O Laço e o Abraço – Maria Beatriz Marinho dos Anjos

(pintura deAmy Judd)

Meu Deus! Como é engraçado!

Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço… uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido,
em qualquer coisa onde o faço.

E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando…
devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.

Ah! Então, é assim o amor, a amizade.

Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode se desfazer a qualquer hora,
deixando livre as duas bandas do laço. Por isso é que se diz:
laço afetivo, laço de amizade.

E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso…

Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço!

Maria Beatriz Marinho dos Anjos

Nota: poema atribuído erroneamente à Mário Quintana na internet.

Pedido Quase Uma Prece – Manoel de Barros

(pintura de Louis Aston Knight)

Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no quintal –
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas
como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa.
Em verdade, não é necessário que seja azul,
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor.
Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir
os ventos pelos caminhos, e ver o sol
Dourando os cabelos negros
e os olhos de minha amada.

Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
Em verdade ela é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
Que sem ela a casa também eu não queria,
e voltava pra pensão.

Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos
E a dona é sempre uma senhora
do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre,
e daí podeis muito bem deduzir
Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.

Nas minhas solidões de amor e
nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
Como amarga a vida de um
homem o carinho das prostitutas!

Vós sabeis como tudo amarga
naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.

Permiti que eu sonhe com
a minha amada também, porque:
– De que me vale ter casa sem ter
mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame
andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o
como se vê nos cinemas…

O ideal seria uma que amasse fazer comparações
de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno,
gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas…

O ideal seria uma menina boba:
que gostasse de ver folha cair de tarde…
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas …
O ideal seria uma criança sem dono,
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome –
senão que um sorriso triste
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto
das crianças que não têm rumo…

Manoel de Barros

Conquista – Miguel Torga

(Arte fotográfica de Robert ParkeHarrison)

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga
in Cântico do Homem

Ano Novo – Ferreira Gullar


Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

Ferreira Gullar

Valsa – Dmitri Shostakovich

“Das habilidades que o mundo sabe,

essa ainda é a que faz melhor: dar voltas”

José Saramago

@-;–

QUE O ANO NOVO SEJA DE VERDADEIRA RENOVAÇÃO!

Poesias em Retrospectiva – 2017

(Clique no poema para visualizar)

As Dez Poesias Brasileiras Mais Lidas no Ano:

O Sobrevivente – Carlos Drummond de Andrade
Emergência – Mário Quintana
Motivo – Cecília Meireles

Momento – Mário de Andrade
Versos Íntimos – Augusto dos Anjos
Tempo perdido – Mário Quintana
O Vôo – Menotti Del Picchia
Se se morre de amor! – Gonçalves Dias
Certeza – Fernando Sabino
As Andorinhas de Antônio Nobre – Cassiano Ricardo

As Dez Poesias Estrangeiras Mais Lidas no Ano:

Caminhante – Antonio Machado
O Tigre – William Blake
Carrego seu coração comigo – E. E. Cummings
Luar – Paul Verlaine
Quando Vier a Primavera – Fernando Pessoa
Solilóquio de Hamlet – William Shakespeare
Traga-me o Girassol – Eugenio Montale
Uma Rosa Vermelha – Robert Burns
Talvez – Pablo Neruda
Segue o Teu Destino – Fernando Pessoa

As Cinco Crônicas Mais Lidas no Ano:

A Morte Devagar – Martha Medeiros
Viver Sem Tempos Mortos – Simone de Beauvoir
É Assim que Acontece a Bondade – Rubem Alves
Recomeçar – Paulo Roberto Gaefke
Deus é negro – Frei Betto

As Cinco Poesias Infantis Mais Lidas no Ano:

Leilão de Jardim – Cecília Meireles
Diversidade – Tatiana Belinky
Pontinho de Vista – Pedro Bandeira
Duas Dúzias de Coisinhas à Toa Que Deixam a Gente Feliz – Otávio Roth
O ron-ron do Gatinho – Ferreira Gullar

Os Cinco Vídeos Mais Populares no Ano:

Ode à Alegria – Friedrich Schiller
(Everything I Do) I Do It for You – Bryan Adams
O Inverno – Antonio Vivaldi
I Hope You Dance – Ronan Keating
Sonho de Ícaro – Byafra

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“Talvez não tenha conseguido fazer o melhor, mas lutei para que o melhor fosse feito. Não sou o que deveria ser, mas Graças a Deus, não sou o que era antes”
(Marthin Luther King)

Com os olhos voltados para o futuro – Sheila Fávaro


Com os olhos voltados para o futuro, cavalguei nas asas da esperança, segurei na cela do coração, enchi meus pulmões do mais puro ar da alegria, pousei em cima da montanha mais alta do Universo, percebi a grandeza do mundo que me rodeia.

A luz do sol trajado em dourado cobria com um manto amarelo o céu singelo, que infinitamente generoso doava-se a natureza, vislumbrei o tamanho do abismo que me torna um pequeno ser, parte integrante de um gigante. Enchi os olhos com a visão do Criador, respirei toda força do mundo trajada em luz. De volta, trazida nas asas da paixão, esperando ser tão grande a ponto de abraçar o Universo. Sentindo-me parte da vida, esta que me foi dada para ser intensamente vivida.

Que em todo pequeno ser haja uma porção generosa de humildade, de esperança e amor. Que neste Natal possamos cavalgar nas asas do espírito que nos cerca, alcançando as estrelas e segurando-as com força para que nunca se apaguem. E que neste ano que está para começar se abra um enorme portal que nos receba com o tamanho do amor de Deus.

Sheila Fávaro

Believe – Josh Groban

(cena do flme O Expresso Polar)

Children sleeping, snow is softly falling
Dreams are calling like bells in the distance
We were dreamers not so long ago
But one by one we all had to grow up
When it seems the magic’s slipped away
We find it all again on Christmas day

Believe in what your heart is saying
Hear the melody that’s playing
There’s no time to waste
There’s so much to celebrate
Believe in what you feel inside
And give your dreams the wings to fly
You have everything you need
If you just believe

Trains move quickly to their journey’s end
Destinations are where we begin again
Ships go sailing far across the sea
Trusting starlight to get where they need to be
When it seems that we have lost our way
We find ourselves again on Christmas day

Believe in what your heart is saying
Hear the melody that’s playing
There’s no time to waste
There’s so much to celebrate
Believe in what you feel inside
And give your dreams the wings to fly
You have everything you need
If you just believe

Just believe

Composição: letra de Glen Ballard e Alan Silvestri e música de Josh Groban (2004)
A música foi incluida no filme The Polar Express (O Expresso Polar), que foi baseado no livro infantil de mesmo nome, de Chris Van Allsburg (1985).


.
Tradução: Acredite

Crianças dormindo, a neve branca está caindo
Sonhos estão chamando como sinos à distância
Éramos sonhadores até pouco tempo atrás
Mas um por um, nós todos tivemos que crescer
Mas quando parece que a magia foi embora
A encontramos de novo no Natal

Acredite no que o seu coração está dizendo
Ouça a melodia que está tocando
Não há tempo para desperdiçar
Há muito para celebrar
Acredite no que você sente por dentro
E dê asas aos seus sonhos
Você terá tudo que precisa
Se você apenas acreditar

Os trens se movem rapidamente para o fim da jornada
Destinos estão onde começamos do início
Navios navegam pelo mar
Confiando no brilho das estrelas
Quando parece que perdemos o caminho
Nos encontramos de novo no Natal

Apenas acredite

Poema de Natal – Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos –
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos –
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai –
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte –
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

Aperitivos Teológicos – Rubem Alves

(flor da cebola)

Parábola sobre Deus: Algumas pessoas olham através da vidraça, discutem sobre uma casa que estão vendo, ao longe. Uma das pessoas diz que aquela casa é habitada por um nobre, de hábitos aristocráticos e conservadores. Uma outra diz o contrário, que lá mora um operário, membro do sindicato, revolucionário. Uma terceira diz que os dois primeiros estão errados: ninguém mora na casa. Ela está vazia. Pedem a minha opinião. Eu me aproximo, eles apontam através do vidro, na direção da casa. Olho, olho, e concluo que alguma coisa deve estar errada com os meus olhos. Eu não vejo casa alguma. O que eu vejo são os reflexos do meu próprio rosto, nos vidros da vidraça…

Diz o Alberto Caeiro que pensar em Deus é desobedecer a Deus. Se Deus quisesse que pensássemos nele ele apareceria à nossa frente e diria: ‘Estou aqui!’ Mas isso nunca aconteceu. William Blake falava em ‘ver a eternidade num grão de areia…’ A eternidade se revela refletida no rio do tempo. Já tive uma paciente que achou que estava ficando louca porque viu a eternidade numa cebola cortada! Cebolas, ela já as havia cortado centenas de vezes para cozinhar. Para ela cebolas eram comestíveis. Mas, num dia como qualquer outro, ao olhar para a cebola que ela acabara de cortar, ela não viu a cebola: viu um vitral de catedral, milhares de minúsculos vidros brancos, estruturados em círculos concêntricos, onde a luz se refletia. Eu a tranqüilizei. Não estava louca. Estava poeta. Neruda escreveu sobre a cebola ‘rosa de água com escamas de cristal…’

Pessoas há que, para terem experiências místicas, fazem longas peregrinações a lugares onde anjos e seres do outro mundo aparecem. Eu, ao contrário, quando quero ter experiências místicas, vou à feira. Cebolas, tomates, pimentões, uvas, caquís e bananas me assombram mais que anjos azuis e espíritos luminosos. São entidades assombrosas. Você já olhou para elas com atenção? Penso que Deus deve ter sido um artista brincalhão para inventar coisas tão incríveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinária.

Místicos e poetas sabem que o Paraíso está espalhado pelo mundo – mas não conseguimos vê-lo com os olhos que temos. Somos cegos. O Zen Budismo fala da necessidade de se ‘abrir o terceiro olho’. Repentinamente a gente vê o que não via! Não se trata de ver coisas extraordinárias, anjos, aparições, espíritos, seres de um outro mundo. Trata- se de ver esse nosso mundo sob uma nova luz.

Rubem Alves

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