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Literaturazinha – Álvaro Moreyra

Imperatriz Dona Amélia do Brasil

(Imperatriz Dona Amélia do Brasil – Fonte: imperiobrasileiro-rs.blogspot.com)

Entre os documentos da nossa história sentimental, nenhum é mais interessante do que a carta de adeus, escrita pela segunda imperatriz ao seu enteado, que ficava dono de um trono, sem saber ainda o que fazer dele. Dona Amélia, antes de ir para bordo da nau Werspite, na qual saiu do Brasil, deixou estas palavras a d. Pedro II:

D. Pedro II

D. Pedro II

“Adeus, menino querido, delícias de minha alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado! Adeus, para sempre, adeus! Quanto és formoso neste teu repouso! Meus olhos chorosos não se podem fartar de te contemplar! A majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua engraçadíssima fronte de um resplendor misterioso que fascina a mente. Eis o espetáculo mais tocante que a terra pode oferecer! Quanta grandeza e quanta fraqueza a humanidade encerra, representadas em uma criança! Uma coroa e um brinco, um trono e um berço! A púrpura ainda não serve senão de estofo, e aquele que comanda exércitos e rege um império carece de todos os desvelos de uma mãe! Ah! querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe; se minhas entranhas te tivessem concebido, nenhum poder conseguiria separar-me de ti! Nenhuma força te arrancaria de meus braços. Prostrada aos pés daqueles mesmos que abandonaram meu esposo, eu lhes diria entre lágrimas: “Não vedes mais em mim a imperatriz; mas uma mãe desesperada! Permiti que eu vigia o nosso tesouro! Vós o quereis seguro e bem tratado; e quem o haveria de guardar e cuidar com maior devoção? Se não posso ficar a título de mãe, eu serei a sua criada ou a sua escrava!’ Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me pertences senão pelo amor que dediquei a teu augusto pai; um dever sagrado me obriga a acompanhá-lo em seu exílio, através dos mares, a terras estranhas! Adeus, pois, para sempre, adeus! Mães brasileiras, vós que sois meigas e afagadoras dos vossos filhinhos, a par das rolas dos bosques e dos beija-flores das campinas floridas, supri minhas vezes; adotai o órfão coroado; dai-lhe todas um lugar na vossa família e no vosso coração. Ornai o seu leito com as folhas do arbusto constitucional; embalsamai-o com as mais ricas flores de vossa eterna primavera; entrançai o jasmim, a baunilha, a rosa, a angélica, o cinamomo, para coroar a mimosa testa quando o diadema de ouro a tiver machucado! Alimentai-o com a ambrosia das mais saborosas frutas: a ata, o ananás, a cana melíflua; acalentai-o à suave toada das vossas maviosas modinhas! Afugentai para longe de seu berço as aves de rapina, as sutis víboras, as cruéis jararacas, e também os vis aduladores, que envenenam o ar que se respira nas cortes. Se a maldade e a traição lhe prepararem ciladas, vós mesmas armai em sua defesa vossos esposos com as espadas, os mosquetes e as baionetas. Ensinai à sua voz terna as palavras de misericórdia que consolam o infortúnio, as palavras de patriotismo que exaltam as almas generosas, e, de vez em quando, sussurrai ao seu ouvido o nome de sua mãe de adoção!

Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor da felicidade de vosso país e de vosso povo. Ei-lo, tão belo e puro como o primogênito de Eva no paraíso. Eu vô-lo entrego. Agora sinto minhas lágrimas correr com menos amargura. Ei-lo adormecido. Brasileiros! Eu vos suplico que não o acordeis antes que me retire. A boquinha molhada de meu pranto ri, à semelhança do botão de rosa ensopado do orvalho matutino. Ele sorri, e o pai e a mãe o abandonam para sempre! Adeus, órfão imperador, vítima de tua grandeza antes que a saibas conhecer! Adeus, anjo de inocência e de formosura! Adeus! Toma este beijo! e este… e este último! Adeus! Adeus, para sempre, adeus!…”

Isso foi em 7 de abril de 1831.

A literatura da época, menos talvez do que a bondade ingênua daquela doce e excepcional criatura, guiou-lhe a mão sobre o papel, com certeza manchado de lágrimas, as saudosas lágrimas românticas…

Dona Amélia!… Tão linda, tão branca! Estou a imaginá-la agora, no instante da partida, conhecendo bem a triste verdade de nunca mais voltar… Vejo-a daqui, de um recanto da cidade que ela quis com todo o coração, a escutar os gritos de prazer do povo aglomerado, desenfreado, de alegria por ter vencido o imperador… Companheira incompreendida, dona Amélia nem pensa que está imitando o esposo… E está… A carta ao filho da sua antecessora é um monólogo para as platéias do presente e do futuro… Literaturazinha para comover as almas enternecidas… Mas, Deus te perdoou, senhora, porque não fizeste de propósito…

Álvaro Moreyra
(A cidade mulher, 1923)

Nota: A princesa Amélia de Leuchtenberg foi a segunda esposa do imperador D. Pedro I e Imperatriz Consorte do Império do Brasil de 1829 até 1831.

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