Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

Ofélia – Arthur Rimbaud

Alexandre_Cabanel_Ophelia

(Ofélia, por Alexandre Cabanel)

I.
Na onda calma e negra, entre os astros e os céus,
A branca Ofélia, como um grande lírio, passa;
Flutua lentamente e dorme em longos véus…
– Longe, no bosque, o caçador chamando a caça…

Mais de mil anos faz que a triste Ofélia abraça,
Fantasma branco, o rio negro em que perdura.
Mais de mil anos: toda noite ela repassa
À brisa a romança que em delírio murmura.

Beija-lhe o seio o vento e liberta em corola
Os grandes véus nas águas acalentadoras;
Sobre os seus ombros o salgueiro se desola,
Reclina-se o caniço à fronte sonhadora.

Nenúfares feridos suspiram por perto;
Às vezes ela acorda, em vidoeiro ocioso
Um ninho de onde vem tremor de um vôo incerto…
– De astros dourados desce um canto misterioso…

II.
Morreste sim, menina que um rio carrega,
Ó pálida Ofélia, tão bela como a neve!
– É que algum vento montanhês da Noruega
Contou que a liberdade é rude, mas é leve;

– É que um sopro, liberta a cabeleira presa,
Em teu espírito estranhos sons fez nascer
E em teu coração logo ouviste a Natureza
No queixume da árvore e do anoitecer.

– É que a voz do mar furioso, tumulto impávido,
Rasgou teu seio de menina, humano e doce;
– E em manhã de abril, certo cavalheiro pálido,
Um belo e pobre louco, aos teus pés ajoelhou-se.

E aí o céu, o amor: – que sonho, pobre louca!
Ante ele eras a neve, desmaiando à luz;
Visões estrangulavam-te a fala na boca,
O Infinito aterrava os teus olhos azuis!

III.
– E o Poeta diz que sob os raios das estrelas
Procuras toda noite as flores em delírio
E diz que viu na água, entre véus, a colhê-las
Vogar a branca Ofélia como um grande lírio.

Arthur Rimbaud
Tradução de Jorge Wanderley

Ofélia em francês e inglês e breve comentário: Ophélia

I

John-William-Waterhouse-ophelia

(Ofélia, por John W. Waterhouse)

Sur l’onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles…
– On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux ;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s’inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d’elle ;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d’où s’échappe un petit frisson d’aile :
– Un chant mystérieux tombe des astres d’or

II

O pâle Ophélia ! belle comme la neige !
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté !
C’est que les vents tombant des grand monts de Norwège
T’avaient parlé tout bas de l’âpre liberté ;

C’est qu’un souffle, tordant ta grande chevelure,
À ton esprit rêveur portait d’étranges bruits,
Que ton coeur écoutait le chant de la Nature
Dans les plaintes de l’arbre et les soupirs des nuits ;

C’est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d’enfant, trop humain et trop doux ;
C’est qu’un matin d’avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s’assit muet à tes genoux !

Ciel ! Amour ! Liberté ! Quel rêve, ô pauvre Folle !
Tu te fondais à lui comme une neige au feu :
Tes grandes visions étranglaient ta parole
– Et l’Infini terrible éffara ton oeil bleu !

III

– Et le Poète dit qu’aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis ;
Et qu’il a vu sur l’eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys.

Em inglês:

I

ophelia jules joseph lefebvre

(Ofélia, por Jules J. Lefebvre)

On the calm black water where the stars are sleeping
White Ophelia floats like a great lily;
Floats very slowly, lying in her long veils…
– In the far-off woods you can hear them sound the mort.

For more than a thousand years sad Ophelia
Has passed, a white phantom, down the long black river.
For more than a thousand years her sweet madness
Has murmured its ballad to the evening breeze.

The wind kisses her breasts and unfolds in a wreath
Her great veils rising and falling with the waters;
The shivering willows weep on her shoulder,
The rushes lean over her wide, dreaming brow.

The ruffled water-lilies are sighing around her;
At times she rouses, in a slumbering alder,
Some nest from which escapes a small rustle of wings;
– A mysterious anthem falls from the golden stars.

II

O pale Ophelia! beautiful as snow!
Yes child, you died, carried off by a river!
– It was the winds descending from the great mountains of Norway
That spoke to you in low voices of better freedom.

It was a breath of wind, that, twisting your great hair,
Brought strange rumors to your dreaming mind;
It was your heart listening to the song of Nature
In the groans of the tree and the sighs of the nights;

It was the voice of mad seas, the great roar,
That shattered your child’s heart, too human and too soft;
It was a handsome pale knight, a poor madman
Who one April morning sate mute at your knees!

Heaven! Love! Freedom! What a dream, oh poor crazed Girl!
You melted to him as snow does to a fire;
Your great visions strangled your words
– And fearful Infinity terrified your blue eye!

III

– And the poet says that by starlight
You come seeking, in the night, the flowers that you picked
And that he has seen on the water, lying in her long veils
White Ophelia floating, like a great lily.

Arthur Rimbaud

Nota: A história de Ofélia, personagem da obra Hamlet de William Shakespeare (1599-1601), foi fonte de inspiração para o poema de Arthur Rimbaud (1870). Ofélia é uma jovem da alta nobreza da Dinamarca, filha de Polônio e noiva do Príncipe Hamlet, que busca o amor e a liberdade. Abandonada pelo príncipe, enlouquece e se afoga em desespero.
Em seu poema, Rimbaud ressalta e liga a mãe Natureza em harmonia universal à figura mítica de Ofélia, proporcionando uma sensação de paz e serenidade.
Ofélia tem sido representada em livros, novelas, filmes, músicas, ciência e arte de diversos pintores como John Everett Millais, Arthur Hughes, John William Waterhouse, Alexandre Cabanel, Dante Gabriel Rossetti, Paul Albert Steck, Eugene Delacroix, dentre outros.
(Fontes diversas).

Anúncios

3 Comentários

  1. maria dalva Santos

    Rimbaud, grande poeta,solitário, livre, na arte da poesia pura. Foi quem iluminou e acompanhou com seu canto de silencio o poeta brasileiro Manoel de Barros, que parou de inventar belezas neste ano. Certo voa com Rimbauh por ai.

  2. Afogada de amor, é uma imagem e tanto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: