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O Vento, O Relógio, O Nós – Laura Riding

Lohmuller Gyuri

(pintura de Lohmuller Gyuri)

Enfim o vento entrou no relógio —
Cada minuto por si.
Não há mais sessenta,
Não há mais doze,
É tão tarde quanto cedo.

A chuva desbotou os números.
As árvores nem ligam para o que acontece.
O tempo virou uma paisagem
De folhas suicidas e galhos estóicos —
Que se despintam tão logo pintam.
Ou talvez seja exagero dizer isso,
Com o relógio se devorando
E os minutos com licença para morrer.

O mar não tem imagem alguma.
Ao mar, então, que agora é tempo,
E cada coração mortal um marinheiro
Jurado a se vingar do vento,
A relançar a vida aos dentes frágeis
De onde saiu o primeiro sopro,
Um desafio idiota ao que não sabia
Berrando ao redor do relógio estudioso.

Agora não há tic-tacs nem brisa.
O barco foi a pique com seus homens,
O mar com o barco, o vento com o mar.
O vento enfim entrou no relógio,
O relógio enfim entrou no vento,
O mundo enfim saiu de si.

Podemos enfim fazer sentido, eu e vocês,
Sobreviventes solitárias no papel,
A ousadia do vento e o zelo do relógio
Viram uma linguagem muda,
E eu a história que nela se calou —
Algo mais a ser dito sobre mim?
Direi mais que a falsidade que se afoga
Possa repetir-me palavra por palavra,
Sem que o escrito se altere por um hálito
De querer dizer talvez outra coisa?

Laura Riding Jackson
(Tradução de Rodrigo Garcia Lopes)

Poema original, em inglês: The Wind, The Clock, The We 

The wind has at last got into the clock –
Every minute for itself.
There’s no more sixty,
There’s no more twelve,
It’s as late as it’s early.

The rain has washed out the numbers.
The trees don’t care what happens.
Time has become a landscape
Of suicidal leaves and stoic branches –
Unpainted as fast as painted.
Or perhaps that’s too much to say,
With the clock devouring itself
And the minutes given leave to die.

The sea’s no picture at all.
To sea, then: that’s time now,
And every mortal heart’s a sailor
Sworn to vengeance on the wind,
To hurl life back into the thin teeth
Out of which first it whistled,
An idiotic defiance of it knew not what
Screeching round the studying clock.

Now there’s neither ticking nor blowing.
The ship has gone down with ifs men,
The sea with the ship, the wind with the sea.
The wind at last got into the clock,
The clock at last got into the wind,
The world at last got out of myself.

At last we can make sense, you and I,
You lone survivors on paper,
The wind’s boldness and the clock’s care
Become a voiceless language,
And I the story hushed in it –
Is more to say of me?
Do I say more than self-choked falsity
Can repeat word for word after me,
The script not altered by a breath
Of perhaps meaning otherwise?

Laura Riding

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