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Não tenho paz nem posso fazer guerra – Francesco Petrarca

John-Melhuish-Strudwick-In-the-Golden-Days-1907

(pintura de John Melhuish Strudwick)

Não tenho paz nem posso fazer guerra;
temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
e voo para o céu, e desço à terra,
e nada aperto, e todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou se descerra,
nem me retém nem solta o duro laço;
entre livre e submissa esta alma erra,
nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
e sonho perecer e ajuda imploro;
a mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
a morte como a vida enfim deploro:
e neste estado sou, Dama, por vós.

Francesco Petrarca
Tradução de Jamil Almansur Haddad

Soneto nº 104 da obra Il Canzoniere, de Petrarca, musicado por Franz Liszt. A música transmite a tristeza, a alegria, o amor, a vida e a morte, tudo ao mesmo tempo. Vídeo com o pianista ucraniano Vladimir Horowitz, considerado um dos mais brilhantes pianistas de todos os tempos:


.
Soneto original, em italiano e tradução em inglês: 

Pace non trovo e non ho da far guerra;
e temo e spero, ed ardo e son’ un ghiaccio;
e volo sopra’l cielo e giaccio in terra:
e nulla stringo e tutto ‘l mondo abbraccio.

Tal m’ha in prigion, che non m’apre, nè serra;
nè per suo mi riten, nè sciogle il laccio;
e non m’ancide Amor, e non mi sferra,
nè mi vuol vivo, nè mi trae d’impaccio.

Veggio senz’occhi; e non ho lingua, e grido;
e bramo di perir e cheggio aita;
ed ho in odio me stesso, ed amo altrui:

Pascomi di dolor; piangendo rido;
egualmente mi spiace morte, e vita.
in questo stato son, donna, per vui.

Francesco Petrarca

Tradução em inglês:

I find no peace, but for war am not inclined;
I fear, yet hope; I burn, yet am turned to ice;
I soar in the heavens, but lie upon the ground;
I hold nothing, though I embrace the whole world.

Love has me in a prison which he neither opens nor shuts fast;
he neither claims me for his own nor loosens my halter;
he neither slays nor unshackles me;
he would not have me live, yet leaves me with my torment.

Eyeless I gaze, and tongueless I cry out;
I long to perish, yet plead for succour;
I hate myself, but love another.

I feed on grief, yet weeping, laugh;
death and life alike repel me;
and to this state I am come, my lady, because of you

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2 Comentários

  1. Conforme estávamos conversando lá no “Adoro esse teu ar quando me tocas”, do Joaquim Pessoa, e aproximando este seu post aqui, do Petrarca, com o anterior, o “Quando da bela vista e doce riso”, do Camões, agora que vejo entendo porque você ficou tão impressionada pela semelhança entre ambos sentidores. Quer ficar mais impressionada ? Compare este post aqui, o “Não tenho paz nem posso fazer guerra” com o soneto camoniano “Tanto do meu estado me acho incerto”. Enquanto lia esta postagem, parece que estava uovindo ecos do soneto camoniano que citei e tenho de cor. Fiquei me perguntando até agora há pouco: de quem foi o copo e de quem foi a água que esses dois tiveram, e quem ofereceu o que pra quem? Em outras e mais simples e diretas palavras: Camões bebeu de Petrarca ou Petrarca de Camões? Aí pesquisei e descobri que Petrarca nasceu primeiro, o que faz com que o Camões fique de suspeito nessa história. rsss Mas, como não sei se as obras do Petrarca foram todas, por assim dizer, “publicadas” dentro de algum dos anos de vida e obra do português, pode ser que o Camões tenha sido original e fantasmagoricamente semelhante ao italiano, e ninguém imitou ninguém. rsssss

    • Olá Tempo das Ideias! Tem muito mistério nisso… É o mesmo soneto!!! É melhor não dizer que Camões “copiou”. Talvez Camões (1524-1580) tenha sido a reencarnação de Petrarca (1304-1374), um pouco mais moderno, talvez? rsrs Ou psicografou?
      Aqui segue o soneto camoniano para apreciarmos 🙂

      Tanto de meu estado me acho incerto,
      Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
      Sem causa juntamente chóro e rio;
      O mundo todo abarco, e nada apérto.

      He tudo quanto sinto hum desconcêrto:
      Da alma hum fogo me sahe, da vista hum rio;
      Agora espero, agora desconfio;
      Agora desvarío, agora acérto.

      Estando em terra, chego ao ceo voando;
      N’hum’hora acho mil annos, e he de geito
      Que em mil annos não posso achar hum’hora.

      Se me pergunta alguem, porque assi ando,
      Respondo, que não sei: porém suspeito
      Que só porque vos vi, minha Senhora.

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