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Solilóquio de Hamlet – William Shakespeare

Hamlet-sculpture

(Estátua de Hamlet, Inglaterra)

Ser ou não ser, esta é a questão. Para a alma
O que é mais nobre, suportar os dardos
E as pedras da ultrajante sorte, ou contra
Um mar de erros se erguer, aniquilando-o?
Morrer, dormir, não mais. E com o sono,
Dizem, a dor do coração findamos
E as lutas mil que são da carne a herança.
Qual mais buscado fim: Dormir, morrer.
Dormir! Talvez sonhar. Este é o obstáculo:
Neste sono mortal podem vir sonhos
Quando libertos deste liame efêmero.
Há pois que vacilar. Tal raciocínio
Faz a desgraça da tão longa vida,
Pois quem do tempo aguentaria os golpes
E o escárnio, e o peso do opressor e a afronta
Do altivo, o amor sem volta, a lei morosa,
A ofensa do poder, e o coice certo
Que o paciente valor leva dos crápulas
Se a paz pudesse dar-se com um punhal?
Quem tais fardos levara, suando e arfando
Sob o exausto viver, não fosse o medo
De algo depois da morte, a terra obscura
De onde ninguém voltou – turvando o arbítrio,
Fazendo-nos tragar antes os males
Daqui, que voar aos outros não sabidos?
Assim nos faz covardes a consciência
E o ardor primeiro do desígnio murcha-se
Frente ao pálido olhar do pensamento,
E as maiores e mais vitais empresas
Com essa ideia desviam-se, perdendo
Qualquer nome de ação. – Silêncio, agora!
A bela Ofélia. – Ninfa, em tuas rezas
Pede por meus pecados.

William Shakespeare
(Tradução de Alexei Bueno)

Nota: Hamlet é uma tragédia de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601, que conta a história do príncipe Hamlet, da Dinamarca. Este solilóquio encontra-se no Ato III, cena I, e é considerado o mais famoso da peça.  Solilóquio, do latim “solilóquium” (solus = sozinho e loqui = falar) consiste em falar o que se passa na consciência, uma espécie de diálogo do autor com sua própria alma, materializando pensamentos em busca de sua essência. “To be or not to be – that is the question” é a frase mais famosa da Literatura Universal. (Fonte: Wikipédia).

Poema original, em inglês: Hamlet’s Soliloquy

To be, or not to be: that is the question:
Whether ‘tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die, to sleep,
No more; and by a sleep to say we end
The heartache, and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ‘tis a consummation
Devoutly to be wished. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub,
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause. There’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
Th’ oppressor’s wrong, the proud man’s contumely
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office, and the spurns
That patient merit of th’ unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? Who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscovered country, from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will,
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all,
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprise of great pitch and moment
With this regard their currents turn awry
And lose the name of action. – Soft you now!
The fair Ophelia! — Nymph, in thy orisons
Be all my sins remembered.

William Shakespeare

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3 Comentários

  1. Belíssimo, como poema e como pensamento, a exata sensação de pequinez que o homem tem frente aos problemas do mundo, seus desejos e o seu inefável destino: a morte.

    • Caro Angelino, auguri e grazie!!!
      Então… Encontrei uma análise sobre “Ser ou Não Ser” no Dicionário de Cultura Básica, autoria do escritor e professor ítalo-brasileiro, Salvatore D’Onofrio, muito interessante, que reproduzo a seguir:
      “Está colocado aqui o dilema fundamental do ser humano: aceitar estóica ou evangelicamente o sofrimento, o ultraje e a injustiça ou rebelar-se e tentar enfrentar as adversidades, retrucando com as mesmas armas da violência e da perfídia? Não seria melhor refugiar-se no esquecimento do sono, do sonho, da morte? Mas como encontrar na morte o descanso de todas as opressões, se penas terríveis ameaçam os suicidas no mundo desconhecido do além? Triste condição do ser humano, incapaz de enfrentar os males presentes, e temeroso dos males futuros! Conseqüência dessa situação é a covardia, causada pelo dilema que atormenta o homem da época barroca, balançando-se entre o desejo da libertação carnal e espiritual, herança da Renascença, e as rígidas e hipócritas imposições religiosas e éticas da Contra-Reforma católica. Mas essa dúvida existencial atormentou apenas e só o homem barroco? O questionamento do sentido da vida perante a inelutável expectativa da morte não foi sempre, e não é ainda hoje, o interrogativo crucial das inteligências mais brilhantes do mundo da filosofia, da ciência e da arte? A perene modernidade deste drama de Shakespeare se explica porque seu autor soube colocar artisticamente uma problemática humana que é universal e eterna!” O estudo completo sobre Hamlet pode ser encontrado no link http://pt.wikisource.org/wiki/Dicion%C3%A1rio_de_Cultura_B%C3%A1sica/Shakespeare
      E então? “To be or not to be?”

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