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Viagem a “São Saruê” – Manuel Camilo dos Santos

Almeida_Junior_O_Violeiro

(O Violeiro, pintura de José Ferraz de Almeida Júnior)

“Doutor mestre pensamento”
me disse um dia: – Você
Camilo, vá visitar
o país “São Saruê”
pois é o lugar melhor
que neste mundo se vê.

Eu que desde pequenino
sempre ouvia falar
neste tal “São Saruê”
destinei-me a viajar,
com ordem do pensamento
fui conhecer o lugar.

Iniciei a viagem
as duas da madrugada,
tomei o carro da brisa
passei pela alvorada
junto do quebrar da barra
eu vi a aurora abismada.

Pela aragem matutina
eu avistei bem defronte
a irmã linda aurora
que se banhava na fonte,
já o sol vinha espargindo
no além do horizonte.

Surgiu o dia risonho
na primavera imponente,
as horas passavam lentas
o espaço encandescente
transformava a brisa mansa
em um mormaço dolente.

Passei do carro da brisa
para o carro do mormaço
o qual veloz penetrou
no além do grande espaço
nos confins dos horizontes
senti do dia o cansaço.

Enquanto a tarde caía
entre mistério e segredo
a viração docilmente
afagava os arvoredos,
os últimos raios do sol
bordavam os altos penêdos.

Morreu a tarde e a noite
assumiu sua chefia,
deixei o mormaço e tomei
o carro da neve fria,
vi os mistérios da noite
esperando pelo dia.

Ao romper da nova aurora
senti o carro pairar
olhei e vi uma praia
ler, escrever e contar,
canta, corre, salta e faz
tudo quanto se mandar.

Lá tem um rio chamado:
o banho da mocidade,
onde um velho de cem anos
tomando banho e vontade
quando sai fora parece
ter vinte anos de idade.

Lá não se vê mulher feia
e toda moça é formosa
alva, rica e bem decente
fantasiada e cheirosa,
igual a um lindo jardim
repleto de cravo e rosa.

É um lugar magnífico
onde eu passei muitos dias
passando bem e gozando
prazer, amor, simpatia,
todo esse tempo ocupei-me
em recitar poesias.

Ao sair de lá me deram
uns pacotes de papéis
era dinheiro emaçado
notas de contos de réis
quinhentos, duzentos e cem
de cinqüenta, vinte e dez.

Lá existem tudo quanto é beleza
tudo quanto é bom, belo e bonito,
parece um lugar santo e bendito
ou um jardim da divina Natureza:
imita muito bem pela grandeza
a terra da antiga promissão
para onde Moisés e Aarão
conduzirão o povo de Israel,
onde dizem que corriam leite e mel
e caia manjar do céu no chão.

Tudo lá é festa e harmonia
amor, paz, benquerer, felicidade
descanso, sossego e amizade
prazer, tranqüilidade e alegria:
na véspera de eu sair aquele dia
um discurso poético, lá eu fiz,
me deram a mandado de um juiz
um anel de brilhante e de “rubim”
no qual um letreiro diz assim:
é feliz quem visita este país.

Vou terminar avisando
a qualquer um amiguinho
que quiser ir lá
posso ensinar o caminho,
porém só ensino a quem
me comprar um folhetinho.
FIM

Manuel Camilo dos Santos

Literatura-de-cordel

(Literatura de Cordel)

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