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A Morte Devagar – Martha Medeiros

pintura de William Bouguereau

(pintura de William Bouguereau)

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Martha Medeiros
(poema atribuido erroneamente a Pablo Neruda na internet)

Uma versão do poema em italiano

Ode alla Vita

Lentamente muore chi non cambia idee, chi non cambia discorso, chi evita le proprie contraddizioni.

Lentamente muore chi diventa schiavo dell’abitudine, ripetendo tutti i giorni lo stesso percorso e la stessa spesa al supermercato. Chi non cambia marchio, chi non rischia di vestirsi di un colore nuovo, chi non chiacchiera con chi non conosce.

Lentamente muore chi fa della tv il suo guru ed il suo compagno quotidiano. Tanti non possono comprare un libro oppure un biglietto per il cinema, ma tanti lo possono fare, e nonostante tutto si alienano davanti al tubo d’immagini che porta informazioni ed intrattenimento, ma che non dovrebbe, anche con soli 14 pollici, occupare tanto spazio in una vita.

Lentamente muore chi evita una passione, chi preferisce il nero sul bianco e i puntini sulle “i” ad un vortice di emozioni indomabili, giustamente quelle che riscattano la luce negli occhi, sorrisi e singhiozzi, cuori che palpitano, sentimenti.

Lentamente muore chi non capovolge il tavolo quando è infelice sul lavoro, chi non rischia il certo per l’incerto dietro un sogno, chi non si permette, una volta nella vita, di sfuggire a sensati consigli.

Lentamente muore chi non viaggia, chi non legge, chi non ascolta musica, chi non ride di sè stesso.

Lentamente muore chi distrugge il suo amor proprio. Può essere una depressione, che è una seria malattia e richiede aiuto professionale. Quindi perisce ogni giorno chi non si lascia aiutare.

Lentamente muore chi non lavora e non studia, e nella maggior parte delle volte non è una scelta e, sì, destino: quindi un governo inetto può uccidere lentamente una buona parte della popolazione.

Lentamente muore chi passa i suoi giorni lamentandosi della sfortuna o della pioggia incessante, desistendo dei progetti prima di cominciarli, non facendo domande su argomenti che non conosce e non rispondendo quando gli chiedono quello che sa. Tanta gente muore lentamente e questa è la morte più ingrata e fuorviante, poiché quando lei si avvicina sul serio, siamo già fuori allenamento per percorrere il poco tempo che ci resta. Che domani, pertanto, metta molto tempo per essere il nostro giorno. Giacché non possiamo evitare una fine improvvisa, che quanto meno evitiamo la morte in piccole rate mensili, sempre ricordando che “essere vivo” richiede più sforzo che semplicemente “respirare”.

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7 Comentários

  1. Taciana M. A. Kuhn

    Olá! Adoro este poema e acreditava realmente que o texto era do Pablo Neruda…depois que li em seu blog é que comecei a procurar informações e vi a autora de verdade. Gostaria de saber se você poderia me fornecer a fonte original (jornal, livro, revista, edição e data de publicação) pois gostaria de citá-lo em um trabalho, mas preciso de todas estas informações, na verdade eu preciso encontrar a fonte original…parabéns pela escolha do poema no blog! ele realmente é muito lindo!!

    • Olá Taciana! Obrigada pelo contato e comentário. Não sei se essa crônica está publicada em algum livro da Martha Medeiros, pelo menos não encontrei nenhuma citação até o momento. Sei que foi primeiramente publicada na coluna da escritora no jornal Zero Hora de Porto Alegre, em 2000, às vésperas do dia de finados.

      • Taciana M. A. Kuhn

        Muito obrigada pela informação!

  2. Catherine Renha

    Então ode alla vita é o título em italiano? Quero tatuar essa frase em homenagem ao poema, preciso ter certeza. De qual fonte tirou isso? Obrigada desde já

    • Olá Catherine, obrigada por nos escrever.
      Este é um dos diversos poemas que encontramos com atribuições erradas na internet. Nesta crônica de Martha Medeiros, em particular, tem uma história bem interessante… Parte dela foi lida no Senado italiano por Clemente Mastella, para tentar derrubar o então primeiro ministro Romano Prodi, mas atribuiu as frases erroneamente a Neruda (2008). A imprensa descobriu e o poema virou manchete nos jornais europeus. A partir dessa história, decidi registrar a crônica também em italiano, mas não sei de onde surgiu o nome “Ode alla vita” e também não encontrei uma tradução oficial, mas o título é amplamente citado, inclusive na notícia do jornal italiano La Republica. Seguem links usados e espero ter ajudado.
      http://www.repubblica.it/2008/01/sezioni/politica/crisi-governo-2/poesia-neruda-no/poesia-neruda-no.html
      http://www.aforismario.net/2016/11/poesie-vita.html
      abraços poéticos ❤

      • Catherine Renha

        Eu que agradeço, muito obrigada pela atenção e esclarecimento, fiz hoje a tatuagem e estou muito feliz. É um lindo poema e uma filosofia de vida para mim. Abraços!

        • Deve ter ficado muito linda! Ode alla Vita! Tanti Auguri!

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