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Outra Classe – Sólon Borges dos Reis

Hora do recreio, E. E. Min. Costa Manso, SP, década de 70

Vindas de quarenta lares diferentes
foi diante de ti que se juntaram.
Lembras-te da primeira turma?
Antes de se encontrarem
e se reunirem aqui,
nem se conheciam…

Cada uma era uma em cada casa,
no mundo do folguedo onde brincavam
e, enquanto brincavam,
esperavam,
e, enquanto esperavam,
cresciam…

Mas, nenhuma o perfil adivinhava ainda
da classe que mais tarde integrariam.
Foi contigo a primeira vez que se reuniram.

Tu deste ambiente ao grupo ruidoso,
polarizaste todas as tendências,
as mais diversas, índoles distintas,
no denominador comum da mesma turma,
e sob a catalítica ação da tua presença,
num corpo unido aglutinaste todas.
E, pronta a classe,
tu lhe emprestaste a alma.

Um dia, partiram.
Mais cedo ou mais tarde,
há sempre um dia para partir…
Quando se foram, já não eram mais as mesmas.
Levavam consigo a convivência
do cotidiano acrescentada,
quando se foram para sempre,
cada uma a cada casa
E, submersa no inconsciente,
a estampa de um cenário inapagável
a acompanhá-las para a vida toda,
com a presença perene desse tempo
lá no fundo do peito radicada.

Tu, também, por tua vez,
já não eras mais a mesma criatura,
presente em teus ouvidos a voz delas,
fixada em tua retina a imagem delas,
e, vincando para sempre o teu roteiro,
uma saudade delas…

Cada turma que passa modifica a gente
e deixa em nosso íntimo algo diferente…
Parece que foi ontem, mas faz tanto tempo!
Quantos anos se passaram!
Como se escoa o tempo tão depressa!
E a gente nem percebe. Olha
a rapidez como a folhinha se desfolha,
e, sobre a agenda ultrapassada,
o relógio impassível que não cessa.

Desde a primeira turma que partiu,
como todas as outras, descuidada,
quantas nos corredores já chilrearam,
movimentando o pátio em algazarra…
Quantos rostos novos te olharam com ternura,
quantos nomes ganharam o teu afeto
e com seus feitos
povoam hoje a tua memória
emaranhada em livros e cadernos.

Quando interrompes, vez ou outra, essa rotina
da tarefa de amor em que puseste a vida,
à margem da fadiga da tua faina amiga,
ressurge uma saudade que magoa.

Dói, sim, lembrar as turmas que chegaram,
tímidas, hesitantes, curiosas,
um bando de andorinhas buliçosas,
e partiram, depois, despreocupadas.

Cuidas ouvir as vozes que se foram,
gritos, reclamações, as correrias,
cuidas rever até o ar de espanto
que às vezes tinham nas fisionomias.

Onde andarão agora essas crianças,
com suas perguntas inocentes
e ingênuas brincadeiras?

Que destino
as surpreendeu na vida, desde então?
As cabecinhas meigas que afagaste
já vão longe em seu caminho.
Cada qual seguiu seu rumo.
Que Deus lhes guie os passos.

Mas, deixaram contigo uma lembrança
que hoje, em surdina, é tua companheira.

Não sofras, no entanto, a pena de temer
que, se, um dia, as reencontrares,
não as reconhecerás.
Algumas, pode ser até que muitas,
encarregar-se-ão de te buscar,
porque nunca mais sairás do mundo delas.

Mas, esquece isso tudo, no momento,
e retorna ao presente, que é preciso.

Mais quarenta andorinhas vão chegar.
Outra classe, em seguida, vai entrar.

Aparta a névoa cinza dos teus olhos,
enxuga a lágrima que aponta.

As aulas vão recomeçar.

Há uma chamada nova à tua espera.

Estão nascendo rosas no jardim da escola…

Professor Sólon Borges dos Reis

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