Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

A Arte da Oração – Rubem Alves


Hoje vou escrever sobre a arte de rezar. Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disto. Falam sobre outras coisas, dez mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T. S. Eliot, temos conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte.

A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração.

Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco) está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso – e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema:

“Olhei para este mundo – e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco… Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu…“

Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo.

Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas a alma precisa de beleza. E a beleza – o mundo a serve a mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos.

Além da beleza estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era multo bom.

E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou este sentimento num poema:

“Dá-me lírios, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante, faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega.“

Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram a terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes da alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro.

O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é urna fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes “O homem tem dois olhos“, disse o místico medieval Angelus Silésius. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino.“ Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria – perdidas. Perdidas as fontes da alegria as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas).

O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas.

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria.

Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida“: haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria.

Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis, é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós“, que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito mas não consegui. As orações põem música no meu silêncio.

Rubem Alves
in “Transparências da eternidade”

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A Vida – Augusto Branco


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é MUITO para ser insignificante.

Augusto Branco

Nota: Poema com várias versões na internet e atribuído erroneamente a Charles Chaplin, Luis Fernando Veríssimo e outros.

Julgamento – Rabindranath Tagore

(pintura de Graham Gercken)

Não julgues…
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco…
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho…
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.

Rabindranath Tagore
Tradução de José Agostinho Baptista

Canção Amiga – Carlos Drummond de Andrade

(Carlos Drummond de Andrade, Cédula de 50 Cruzados Novos, 1989)

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade
In Novos Poemas

Imagem: A temática das cédulas do Sistema Monetário Nacional do Cruzado Novo, de 16 de janeiro de 1989 a 16 de março de 1990, foi voltada para as grandes expressões da cultura nacional e a cédula de cinquenta cruzados novos foi dedicada ao poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade. A frente da cédula traz a imagem do homenageado e traços característicos da vida e da obra do poeta. Ao fundo, figuram pedras representando o minério e o calçamento de caminhos e ruas da antiga Itabira. Também estão representados o casario da cidade e as montanhas da região onde nasceu o poeta e trecho do poema “Prece do mineiro no Rio”:

“Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.”

No verso da cédula, o desenho característico do calçamento de Copacabana, onde o poeta viveu muitos anos e produziu a maior parte de sua obra, uma gravura do poeta em sua mesa de trabalho e a reprodução do poema “Canção Amiga”.

O poema Canção Amiga foi também musicado por Milton Nascimento e faz parte do CD Clube da Esquina 2, EMI, de 1978.


Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças…

Com os Mortos – Antero de Quental


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental
in “Sonetos”

I’ll Be There – Jackson 5

(Jackson 5)

You and I must make a pact
We must bring salvation back
Where there is love, I’ll be there

I’ll reach out my hand to you
I’ll have faith in all you do
Just call my name and I’ll be there

And oh, I’ll be there to comfort you
Build my world of dreams around you
I’m so glad that I found you

I’ll be there with a love that’s strong
I’ll be your strength, I’ll keep holding on
(Holding on, holding on, holding on)
Yes I will

Let me fill your heart with joy and laughter
Togetherness, well that’s all I’m after
Whenever you need me, I’ll be there

I’ll be there to protect you (Yeah baby)
With an unselfish love I respect you
Just call my name and I’ll be there

And oh, I’ll be there to comfort you
Build my world of dreams around you
I’m so glad that I found you

I’ll be there with a love that’s strong
I’ll be your strength, I’ll keep holding on
(Holding on, holding on, holding on)
Yes I will

If you should ever find someone new
I know he’d better be good to you
Cause if he doesn’t, I’ll be there

Don’t you know, baby, yeah yeah
I’ll be there, I’ll be there
Just call my name, I’ll be there

Just look over your shoulders, honey, ooh
I’ll be there, I’ll be there
Whenever you need me, I’ll be there

Don’t you know, baby, yeah yeah
I’ll be there, I’ll be there
Just call my name, I’ll be there

Composição de Berry Gordy, Bob West, Hal Davis, Willie Hutch e cantada pelo grupo Jackson 5, formado por Michael Jackson e seus irmãos Jackie, Tito, Jermaine e Marlon, posteriormente incluindo Randy (1968-1984). I’ll be there é cantada por Michael Jackson e seu irmão mais velho Jermaine. A canção ganhou a posição número 1 da parada americana Billboard e foi um grande sucesso também fora dos Estados Unidos, tornando-se um dos seus maiores compactos em vários países. Foi regravada por vários artistas incluindo Josie and the Pussycats e Mariah Carey e também em uma versão Punk pela banda Me First and the Gimme Gimmes.

E aqui, a simplicidade e a singela interpretação dos irmãos Melisizwe…


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Tradução Continuar lendo

A Minha Vida Eu a Vivo em Círculos Crescentes – Rainer Maria Rilke

(pintura de Catrin Welz-Stein)

A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

Tradução de José Paulo Paes

@-;–

Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen,
die sich über die Dinge ziehn.
Ich werde den letzten vielleicht nicht vollbringen,
aber versuchen will ich ihn.

Ich kreise um Gott, um den uralten Turm,
und ich kreise jahrtausendelang;
und ich weiss noch nicht: bin ich ein Falke, ein Sturm
oder ein grosser Gesang..

Rainer Maria Rilke

O Leão e o Ratinho – Esopo


O leão estava dormindo na sombra de uma árvore na floresta, quando um ratinho subiu nas suas costas e escorregou pelo rosto dele. O leão acordou irritado e agarrou o ratinho com sua pata. O ratinho,  apavorado, implorou ao leão:

– Por favor, não me mate! Deixe-me ir e algum dia eu retribuirei.

O Leão riu muito da ideia de que um simples rato pudesse ajudá-lo, mas libertou o ratinho sem lhe fazer mal nenhum.

Alguns dias depois o leão caiu na rede de um caçador e não conseguia se libertar. Quanto mais se agitava, mais preso ficava. O leão começou a rugir desesperadamente e seus urros foram ouvidos na floresta inteira.

O ratinho também ouviu os urros e apareceu para ver o que estava acontecendo. Encontrou o leão debatendo-se na rede. Correu até uma das cordas e roeu até arrebentar as malhas.

O leão ficou livre e muito surpreso por um ratinho conseguir libertar o rei dos animais.

O leão e o ratinho para você colorir

 

O Amor Antigo – Carlos Drummond de Andrade


O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda a parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade
in Amar se aprende amando

Uirapuru – Heitor Villa-Lobos

(Índio Uru-eu-wau-wau, Rondônia)

Trecho de um discurso de Villa-Lobos em João Pessoa, Paraíba, em 1951:

“O Brasil já tem uma forma geográfica de um coração. Todo brasileiro tem esse coração. A música vai de uma alma a outra, os pássaros conversam pela música, eles têm coração. Tudo que se sente na vida, se sente no coração. O coração é o metrônomo da vida e há muita gente na humanidade que se esquece disso. Justamente, o que mais precisa a humanidade é de um metrônomo. Se houvesse alguém no mundo que pudesse colocar um metrônomo no cimo da terra, talvez estivéssemos mais próximos da paz. Porque se desentendem, vivem descompassados raças e povos, porque não se lembram do metrônomo que guardam no peito: o coração. Foi fadado por Deus, justamente no Brasil, possuir uma forma geométrica de coração e haver um ritmo palpitante em toda sua raça, sobretudo no nordeste, esse sentido de ritmo de coração, essa unidade de movimento, esse metrônomo tão sensível.

Meus amigos, foi com esse pensamento que eu me tornei músico. Foi por isso que eu me tornei um escravo profundo e eterno da vida do Brasil, das coisas do Brasil. E, como não tenho o dom da palavra, nem da pena, mas tive o dom do som e do ritmo, transponho em sons e ritmos essa loucura de amor por uma pátria…”

O Uirapuru

“Uirapuru” é das primeiras obras-primas de Villa-Lobos, (1917) e dá início a uma linguagem orquestral tipicamente villa-lobiana. A partitura retrata o ambiente da selva brasileira e seus habitantes naturais – os índios -, com uma impressionante riqueza de detalhes. O argumento que serviu de base para a composição desse poema sinfônico é de autoria do próprio autor, e conta a história de um pássaro (o uirapuru, que na mitologia indígena é considerado o ‘deus do amor’) que se transforma em um belo índio, disputado pelas índias que o encontram. Um índio ciumento, não suportando aquela adoração, flecha-o mortalmente. Ao retornar à sua condição de pássaro torna-se invisível e dele se ouve apenas o canto que desaparece no silêncio da floresta.
Fonte: Museu Villa-Lobos museuvillalobos.org.br

Alegria de Viver – Helena Kolody

(pintura de Vladimir Volegov

Amo a vida.
Fascina-me o mistério de existir.

Quero viver a magia
de cada instante,
embriagar-me de alegria.

Que importa a nuvem no horizonte,
chuva de amanhã?
Hoje o sol inunda o meu dia.

Helena Kolody
in Paisagem Interior

Lua-Luar – Cora Coralina


Escuto leve batida.
Levanto descalça, abro a janela
devagarinho.
Alguém bateu?
É a lua-luar que quer entrar.

Entra lua poesia
antes dos astronautas:
Gagarin da terra azul,
Apolo XI que primeiro passeou solo lunar.

Lua que comanda os mares,
a fúria dos vagalhões
que vem morrer na praia.
O banzeiro das pororocas.

Lua dos namorados,
das intrigas de amor,
dos encontros clandestinos.
Lua-luar que entra e sai.

Lua nova, incompleta no seu meio arco.
Lua crescente, velha enorme, fecunda.
Lua de todos os povos
de todos os quadrantes.

Lua que enfurece o mar e em chumbo,
acovarda barcos pesqueiros.
O barqueiro se recolhe.

O pescado volta às redes.
O jangadeiro trava amarras.
Gaivotas fogem dos rochedos.

Lua cúmplice.
Lésbica lua nascente,
andrógina — lua-luar.
Lua dos becos tristes
das esquinas buliçosas.
Luar dos velhos.
Das velhas plantas sentenciadas.
Do sopro morto
dos bordões, rimas, violinos.

Lua que manda
na semeadura dos campos,
na germinação das sementes,
na abundância das colheitas.

Lua boa.
Lua ruim.
Lua de chuva.
Lua de sol.

Lua das gestações do amor.
Do acaso, do passatempo
Irresistível,
responsável, irresponsável.

Lua grande. Lua genésica
que marca a fertilidade da fêmea
e traz o macho para a semeadura.
O fruto aceito —
mal aceito: repudiado, abandonado,
A semente morta
lançada no esgoto.
A semente viva palpitante
deixada em porta alheia.

Cora Coralina

4º Motivo da Rosa – Cecília Meireles


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles
Do livro Mar Absoluto

Sobre o Sol e a Lua – Soneto I – Alexander Herzog


Toda tarde, um caminha rumo ao outro
A estrela de dia brilha e se retira
Dando imagem, no céu, à lua e lira
No canto, o firmamento, marca encontro

O sol, este inda brilha e cede à noite
O dom de luz prateada [aos olhos diante]
Para que ela desfile ao seu amante
Dando à lua, o sol, tom que esta se afoite

E vê o sol a sua musa passar…
Segurando os seus ventos, o seu brilho
Consumindo-se em si, por todo o ar

Mas ante o universo, pelo amar,
Nos versos de amor que hão de construí-los
Viverão sua paixão sem se tocar…

Alexander Herzog

That’s What Friends Are For – Dionne Warwick e Amigos


And I never thought I’d feel this way
And as far as I’m concerned
I’m glad I got the chance to say
That I do believe I love you
And if I should ever go away
Well then close your eyes and try
To feel the way we do today
And then if you can remember

Keep smilin’, keep shinin’
Knowing you can always count on me for sure
That’s what friends are for
For good times and bad times
I’ll be on your side forever more
That’s what friends are for

Well you came and opened me
And now there’s so much more I see
And so by the way I thank you
And then for the times when we’re apart
Well then close your eyes and know
These words are coming from my heart
And then if you can remember

Oh, keep smilin’, keep shinin’
Knowing you can always count on me for sure
That’s what friends are for
In good times, in bad times
I’ll be on your side forever more
Oh, that’s what friends are for

Oh, keep smilin’, keep shinin’
Knowing you can always count on me for sure
That’s what friends are for
For good times and bad times
I’ll be on your side forever more
Oh, that’s what friends are for

Oh, keep smilin’, keep shinin’
Knowing you can always count on me for sure
‘Cause I tell youl, that’s what friends are for
Oh, good times and for bad times
I’ll be on your side forever more
Oh, that’s what friends are for (that’s what friends are for, ya)
On me for sure (count on me for sure, count on me for sure)
That’s what friends are for

Composição: Música de Burt Bacharach e letra de Carole Bayer, originalmente gravada por Rod Stewart para o filme “Night Shift”, Corretores do Amor no Brasil (1982). Em 1985, a versão “Dionne & Friends”, gravada para angariar fundos para a American Foundation For AIDS Research (AmFAR), explodiu e conseguiu arrecadar mais de US$ 500.000. A AIDS era uma doença ainda desconhecida em 1985 e essa gravação ajudou a chamar a atenção para a causa e para a prevenção da doença. “Dionne & Friends” eram Dionne Warwick, Stevie Wonder, Elton John e Gladys Knight. Em 1987, aconteceu uma apresentação ao vivo da música no Soul Train Music Awards, com Whitney Houston substituindo Gladys Knight e Luther Vandross cantando a parte de Elton John.


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Tradução: É para isso que servem os amigos  Continuar lendo

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