Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

Quando Deus Criou As Mães

(pintura de William-Adolphe Bouguereau)

Diz uma lenda que o dia em que o bom Deus criou as mães, um mensageiro se acercou Dele e Lhe perguntou o porquê de tanto zelo com aquela criação.

Em quê, afinal de contas, ela era tão especial?

O bondoso e paciente Pai de todos nós lhe explicou que aquela mulher teria o papel de mãe, pelo que merecia especial cuidado.

Ela deveria ter um beijo que tivesse o dom de curar qualquer coisa, desde leves machucados até namoro terminado.

Deveria ser dotada de mãos hábeis e ligeiras que agissem depressa preparando o lanche do filho, enquanto mexesse nas panelas para que o almoço não queimasse.

Que tivesse noções básicas de enfermagem e fosse catedrática em medicina da alma. Que aplicasse curativos nos ferimentos do corpo e colocasse bálsamo nas chagas da alma ferida e magoada.

Mãos que soubessem acarinhar, mas que fossem firmes para transmitir segurança ao filho de passos vacilantes. Mãos que soubessem transformar um pedaço de tecido, quase insignificante, numa roupa especial para a festinha da escola.

Por ser mãe deveria ser dotada de muitos pares de olhos. Um par para ver através de portas fechadas, para aqueles momentos em que se perguntasse o que é que as crianças estão tramando no quarto fechado.

Outro par para ver o que não deveria, mas precisa saber e, naturalmente, olhos normais para fitar com doçura uma criança em apuros e lhe dizer: Eu te compreendo. Não tenhas medo. Eu te amo, mesmo sem dizer nenhuma palavra.

O modelo de mãe deveria ser dotado ainda da capacidade de convencer uma criança de nove anos a tomar banho, uma de cinco a escovar os dentes e dormir, quando está na hora.

Um modelo delicado, com certeza, mas resistente, capaz de resistir ao vendaval da adversidade e proteger os filhos.

De superar a própria enfermidade em benefício dos seus amados e de alimentar uma família com o pão do amor.

Uma mulher com capacidade de pensar e fazer acordos com as mais diversas faixas de idade.

Uma mulher com capacidade de derramar lágrimas de saudade e de dor mas, ainda assim, insistir para que o filho parta em busca do que lhe constitua a felicidade ou signifique seu progresso maior.

Uma mulher com lágrimas especiais para os dias da alegria e os da tristeza, para as horas de desapontamento e de solidão.

Uma mulher de lábios ternos, que soubesse cantar canções de ninar para os bebês e tivesse sempre as palavras certas para o filho arrependido pelas tolices feitas.

Lábios que soubessem falar de Deus, do Universo e do amor. Que cantassem poemas de exaltação à beleza da paisagem e aos encantos da vida.

Uma mulher. Uma mãe.

@-;–

Fonte: Redação do Momento Espírita – Federação Espírita do Paraná

Agora Escrevo Pássaros – Julio Cortázar


I.
Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas,
chuva de asas,
e eu sem pão para dar,
tão somente deixo-os vir.
Talvez seja isto uma árvore,
ou quem sabe, o amor.

@-;–

Ahora escribo pájaros.
No los veo venir, no los elijo,
de golpe están ahí, son esto,
una bandada de palabras
posándose
una
a
una
en los alambres de la página,
chirriando, picoteando, lluvia de alas
y yo sin pan que darles, solamente
dejándolos venir. Tal vez
sea eso un árbol
o tal vez
el amor.

Julio Cortázar

As Duas Árvores – William Butler Yeats

Foto de Haroldo Castro

Amada, olha em teu próprio coração,
A árvore sagrada lá está crescendo;
Da alegria os galhos sagrados partem
E carregam todas as flores trêmulas.
As mutáveis cores de seus frutos
Têm dotado as estrelas com luz alegre;
A segurança de sua raiz oculta
Plantou-se quieta na noite;
O movimento de sua copa cheia de folhas
Deu às ondas sua melodia
E casou meus lábios com a música,
Murmurando a ti uma canção de mago.
Lá, o amor percorre um círculo,
O círculo flamejante de nossos dias,
Girando, movendo-se, indo e vindo
Naqueles grandes e ignorantes caminhos de folhas;
Lembrando todo aquele cabelo agitado
E como as sandálias aladas se precipitam,
Teus olhos crescem cheios de ternura:
Amada, olha em teu próprio coração.

Não olhes mais no vidro amargo
Os demônios, com sutil astúcia,
O levantam à nossa frente quando passam,
Ou apenas olha rapidamente;
Pois, lá, cresce uma imagem fatal
Que a noite tempestuosa recebe,
Raízes meio recônditas na neve,
Ramos quebrados e folhas enegrecidas:
Todas as coisas se tornam esterilidade
No vidro sombrio que os demônios sustentam,
O vidro do enfado exterior,
Feito quando Deus dormia em tempos antigos.
Lá, através dos galhos quebrados, vão
Os corvos de pensamento incessante;
Voando, chorando, indo e vindo,
Garra cruel e garganta faminta,
Ou, ainda, eles se levantam e inalam o vento
E sacodem suas asas esfarrapadas; infelizmente!
Teus olhos ternos se tornam totalmente severos:
Não olhes mais no vidro amargo.

W. B. Yeats
Tradução de Edson Manzan Corsi

Poema musicado por Loreena McKennitt:

A Tempestade do Destino – Haruki Murakami

Shelter in the sand duststorm by Calvin Lai

“Abrigo na tempestade de areia”, Calvin Lai

Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito. E você vai atravessá-la, claro.
Falo da tempestade. Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica. Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas, ela rasga a carne sem piedade. Muita gente verteu sangue dentro dela, e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno. E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha. O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar, na certa lhe será difícil entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver. Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou. Uma coisa porém é certa:
Ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou.
Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia…

Haruki Murakami
do livro “Kafka à Beira-Mar”

Poesias em Retrospectiva – 2019

(Clique no poema para visualizar)

As Dez Poesias Brasileiras Mais Lidas no Ano:

Aprendimentos – Manoel de Barros
Céu – Manuel Bandeira
Versos Íntimos – Augusto dos Anjos
O Sobrevivente – Carlos Drummond de Andrade

Dá Meia-Noite – Sousândrade
Uma Canção – Mário Quintana
Lua-Luar – Cora Coralina
E Eis – Clarice Lispetor
Se se morre de amor! – Gonçalves Dias
Verdade – Carlos Drummond de Andrade

As Dez Poesias Estrangeiras Mais Lidas no Ano:

Caminhante – Antonio Machado
O Tigre – William Blake
O Coração Risonho – Charles Bukowski
Augúrios de Inocência – William Blake
Em Paz – Amado Nervo
Luar – Paul Verlaine
Soneto XXII – Francesco Petrarca
A Senhora de Shalott – Alfred Tennyson
Ela Caminha em Beleza – Lord Byron
A Estrada Não Trilhada – Robert Frost

As Cinco Crônicas Mais Lidas no Ano:

Não Deixe o Amor Passar – Carlos Drummond de Andrade
Viver Sem Tempos Mortos – Simone de Beauvoir
A Morte Devagar – Martha Medeiros

Ser Seu Amigo – Vinicius de Moraes
Carpe Diem – Sociedade dos Poetas Mortos

As Cinco Poesias Infantis Mais Lidas no Ano:

As Borboletas – Vinícius de Moraes
Diversidade – Tatiana Belinky
Leilão de Jardim – Cecília Meireles

Duas Dúzias de Coisinhas à Toa Que Deixam a Gente Feliz – Otávio Roth
O Menino Azul – Cecília Meireles

Os Cinco Vídeos Mais Populares no Ano:

Hino da Independência – Dom Pedro I
Carta à Amada Imortal – Ludwig van Beethoven
Ode à Alegria – Friedrich Schiller

O Guarani – A Prece – José de Alencar
Hino à Bandeira – Olavo Bilac

 

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“Duas coisas que me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento dela se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.”
(Immanuel Kant)

Feliz 2020!

Chamar a Si Todo o Céu com um Sorriso – E. E. Cummings

Bunting pintado (Passerina ciris)

que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
aves que são os segredos da vida
o que quer que cantem é melhor do que conhecer
e se os homens não as ouvem estão velhos

que o meu pensamento caminhe pelo faminto
e destemido e sedento e servil
e mesmo que seja domingo que eu me engane
pois sempre que os homens têm razão não são jovens

e que eu não faça nada de útil
e te ame muito mais do que verdadeiramente
nunca houve ninguém tão louco que não conseguisse
chamar a si todo o céu com um sorriso

E. E. Cummings, in “livrodepoemas”
Tradução de Cecília Rego Pinheiro

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may my heart always be open to little
birds who are the secrets of living
whatever they sing is better than to know
and if men should not hear them men are old

may my mind stroll about hungry
and fearless and thirsty and supple
and even if it’s sunday may i be wrong
for whenever men are right they are not young

and may myself do nothing usefully
and love yourself so more than truly
there’s never been quite such a fool who could fail
pulling all the sky over him with one smile

E.E. Cummings

Carpe Diem – Sociedade dos Poetas Mortos


Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso.
Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

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Carpe Diem é uma frase em latim de um poema de Horácio, e é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. É também utilizada como uma expressão para solicitar que se evite gastar o tempo com coisas inúteis ou como uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro.

Vindo da decadência do império Romano o termo Carpe diem era dito para retratar o “cada um por si”, devido o império estar se desfazendo, naquele momento a visão de que cada dia poderia ser realmente o último era retratado pela frase que hoje é utilizada como uma coisa boa, porém sua origem vem do desespero da destruição de um grande império antigo.

No filme “A Sociedade dos Poetas Mortos”, o personagem de Robin Williams, Professor Keating, utiliza-a assim:

“Mas se você escutar bem de perto, você pode ouvi-los sussurrar o seu legado. Vá em frente, abaixe-se. Escute, está ouvindo? – Carpe – ouve? – Carpe, carpe diem, colham o dia garotos, tornem extraordinárias as suas vidas.”

Fonte: Site Pensar Contemporâneo

A Arte da Oração – Rubem Alves


Hoje vou escrever sobre a arte de rezar. Dirão que esse não é tópico que devesse ser tratado por um terapeuta. Rezas e orações são coisas de padres, pastores e gurus religiosos, a serem ensinadas em igrejas, mosteiros e terreiros. Acontece que eu sei que o que as pessoas desejam, ao procurar a terapia, é reaprender a esquecida arte de rezar. Claro que elas não sabem disto. Falam sobre outras coisas, dez mil coisas. Não sabem que a alma deseja uma só coisa, cujo nome esquecemos. Como disse T. S. Eliot, temos conhecimento do movimento, mas não da tranqüilidade; conhecimento das palavras e ignorância da Palavra. Todo o nosso conhecimento nos leva para mais perto da nossa ignorância, e toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte.

A terapia é a busca desse nome esquecido. E quando ele é lembrado e é pronunciado com toda a paixão do corpo e da alma, a esse ato se dá o nome de poesia. A esse ato se pode dar também o nome de oração.

Por detrás da nossa tagarelice (falamos muito e escutamos pouco) está escondido o desejo de orar. Muitas palavras são ditas porque ainda não encontramos a única palavra que importa. Eu gostaria de demonstrar isso – e a demonstração começa com um passeio. Para começar, abra bem os olhos! Veja como este mundo é luminoso e belo! Tão bonito que Nietzsche até mesmo lhe compôs um poema:

“Olhei para este mundo – e era como se uma maçã redonda se oferecesse à minha mão, madura dourada maçã de pele de veludo fresco… Como se mãos delicadas me trouxessem um santuário, santuário aberto para o deleite de olhos tímidos e adorantes: assim este mundo hoje a mim se ofereceu…“

Tudo está bem. Tudo está em ordem. Nada impede o deleite dessa dádiva. Ninguém doente. Nenhuma privação econômica terrível. E há mesmo o gostar das pessoas com quem se vive, sem o que a vida teria um gosto amargo.

Mas isso não é tudo. Além das necessidades vitais básicas a alma precisa de beleza. E a beleza – o mundo a serve a mancheias. Está em todos os lugares, na lua, na rua, nas constelações, nas estações, no mar, no ar, nos rios, nas cachoeiras, na chuva, no cheiro das ervas, na luz que cintila na água crespa das lagoas, nos jardins, nos rostos, nas vozes, nos gestos.

Além da beleza estão os prazeres que moram nos olhos, nos ouvidos, no nariz, na boca, na pele. Como no último dia da criação, temos de concordar com o Criador: olhando para o que tinha sido feito, viu que tudo era multo bom.

E, no entanto, sem que haja qualquer explicação para esse fato, tendo todas as coisas, a alma continua vazia. Álvaro de Campos colocou este sentimento num poema:

“Dá-me lírios, lírios, e rosas também. Crisântemos, dálias, violetas e os girassóis acima de todas as flores. Mas por mais rosas e lírios que me dês, eu nunca acharei que a vida é bastante, faltar-me-á sempre qualquer coisa. Minha dor é inútil como uma gaiola numa terra onde não há aves. E minha dor é silenciosa e triste como a parte da praia onde o mar não chega.“

Como se uma nuvem cinzenta de tristeza-tédio cobrisse todas as coisas. A vida pesa. Caminha-se com dificuldade. O corpo se arrasta. As pessoas procuram a terapia alegando faltar um lírio aqui, uma rosa ali, um crisântemo acolá. Buscam, nessas coisas, a única coisa que importa: a alegria. Acontece que as fontes da alegria não são encontradas no mundo de fora. É inútil que me sejam dadas todas as flores do mundo: as fontes da alegria se encontram no mundo de dentro.

O mundo de dentro: as pessoas religiosas lhe dão o nome de alma. O que é a alma? Alma são as paisagens que existem dentro do nosso corpo. Nosso corpo é urna fronteira entre as paisagens de fora e as paisagens de dentro. E elas são diferentes “O homem tem dois olhos“, disse o místico medieval Angelus Silésius. “Com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro ele vê o que é eterno e divino.“ Em algum lugar escondido das paisagens da alma se encontram as fontes da alegria – perdidas. Perdidas as fontes da alegria as paisagens da alma se apagam, o corpo fica como uma casa vazia. E quando a casa está vazia, vai-se a alegria. E as paisagens de fora ficam feias (a despeito de serem belas).

O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas.

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria.

Muitas orações são produtos da insensatez das pessoas. Acham que o universo estaria melhor se Deus ouvisse os seus conselhos. Pedem que Deus lhes dê pássaros engaiolados, muitos pássaros. Nisso protestantes e católicos são iguais. Tagarelam. E nem se dão ao trabalho de ouvir. Não sabem que a oração é só um gemido. “Suspiro da criatura oprimida“: haverá definição mais bonita? São palavras de Marx. Suspiro: gemido sem palavras que espera ouvir a música divina, a música que, se ouvida, nos traria a alegria.

Gosto de ler orações. Orações e poemas são a mesma coisa: palavras que se pronunciam a partir do silêncio, pedindo que o silêncio nos fale. A se acreditar em Ricardo Reis, é no silêncio que existe no intervalo das palavras que se ouve a voz de “um Ser qualquer, alheio a nós“, que nos fala. O nome do Ser? Não importa. Todos os nomes são metáforas para o Grande Mistério inominável que nos envolve. Gosto de ler orações porque elas dizem as palavras que eu gostaria de ter dito mas não consegui. As orações põem música no meu silêncio.

Rubem Alves
in “Transparências da eternidade”

A Vida – Augusto Branco


Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Viva!!

Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é MUITO para ser insignificante.

Augusto Branco

Nota: Poema com várias versões na internet e atribuído erroneamente a Charles Chaplin, Luis Fernando Veríssimo e outros.

Julgamento – Rabindranath Tagore

(pintura de Graham Gercken)

Não julgues…
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco…
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho…
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.

Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminhas.

Rabindranath Tagore
Tradução de José Agostinho Baptista

Canção Amiga – Carlos Drummond de Andrade

(Carlos Drummond de Andrade, Cédula de 50 Cruzados Novos, 1989)

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Carlos Drummond de Andrade
In Novos Poemas

Imagem: A temática das cédulas do Sistema Monetário Nacional do Cruzado Novo, de 16 de janeiro de 1989 a 16 de março de 1990, foi voltada para as grandes expressões da cultura nacional e a cédula de cinquenta cruzados novos foi dedicada ao poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade. A frente da cédula traz a imagem do homenageado e traços característicos da vida e da obra do poeta. Ao fundo, figuram pedras representando o minério e o calçamento de caminhos e ruas da antiga Itabira. Também estão representados o casario da cidade e as montanhas da região onde nasceu o poeta e trecho do poema “Prece do mineiro no Rio”:

“Desprendido de imagens que se rompem
a um capricho dos deuses, tu regressas
ao que, fora do tempo, é tempo infindo,
no secreto semblante da verdade.”

No verso da cédula, o desenho característico do calçamento de Copacabana, onde o poeta viveu muitos anos e produziu a maior parte de sua obra, uma gravura do poeta em sua mesa de trabalho e a reprodução do poema “Canção Amiga”.

O poema Canção Amiga foi também musicado por Milton Nascimento e faz parte do CD Clube da Esquina 2, EMI, de 1978.


Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças…

Com os Mortos – Antero de Quental


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos…

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos…

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental
in “Sonetos”

I’ll Be There – Jackson 5

(Jackson 5)

You and I must make a pact
We must bring salvation back
Where there is love, I’ll be there

I’ll reach out my hand to you
I’ll have faith in all you do
Just call my name and I’ll be there

And oh, I’ll be there to comfort you
Build my world of dreams around you
I’m so glad that I found you

I’ll be there with a love that’s strong
I’ll be your strength, I’ll keep holding on
(Holding on, holding on, holding on)
Yes I will

Let me fill your heart with joy and laughter
Togetherness, well that’s all I’m after
Whenever you need me, I’ll be there

I’ll be there to protect you (Yeah baby)
With an unselfish love I respect you
Just call my name and I’ll be there

And oh, I’ll be there to comfort you
Build my world of dreams around you
I’m so glad that I found you

I’ll be there with a love that’s strong
I’ll be your strength, I’ll keep holding on
(Holding on, holding on, holding on)
Yes I will

If you should ever find someone new
I know he’d better be good to you
Cause if he doesn’t, I’ll be there

Don’t you know, baby, yeah yeah
I’ll be there, I’ll be there
Just call my name, I’ll be there

Just look over your shoulders, honey, ooh
I’ll be there, I’ll be there
Whenever you need me, I’ll be there

Don’t you know, baby, yeah yeah
I’ll be there, I’ll be there
Just call my name, I’ll be there

Composição de Berry Gordy, Bob West, Hal Davis, Willie Hutch e cantada pelo grupo Jackson 5, formado por Michael Jackson e seus irmãos Jackie, Tito, Jermaine e Marlon, posteriormente incluindo Randy (1968-1984). I’ll be there é cantada por Michael Jackson e seu irmão mais velho Jermaine. A canção ganhou a posição número 1 da parada americana Billboard e foi um grande sucesso também fora dos Estados Unidos, tornando-se um dos seus maiores compactos em vários países. Foi regravada por vários artistas incluindo Josie and the Pussycats e Mariah Carey e também em uma versão Punk pela banda Me First and the Gimme Gimmes.

E aqui, a simplicidade e a singela interpretação dos irmãos Melisizwe…


.
Tradução Continuar lendo

A Minha Vida Eu a Vivo em Círculos Crescentes – Rainer Maria Rilke

(pintura de Catrin Welz-Stein)

A minha vida eu a vivo em círculos crescentes
sobre as coisas, alto no ar.
Não completarei o último, provavelmente,
mesmo assim irei tentar.

Giro à volta de Deus, a torre das idades,
e giro há milênios, tantos…
Não sei ainda o que sou: falcão, tempestade
ou um grande, um grande canto.

Tradução de José Paulo Paes

@-;–

Ich lebe mein Leben in wachsenden Ringen,
die sich über die Dinge ziehn.
Ich werde den letzten vielleicht nicht vollbringen,
aber versuchen will ich ihn.

Ich kreise um Gott, um den uralten Turm,
und ich kreise jahrtausendelang;
und ich weiss noch nicht: bin ich ein Falke, ein Sturm
oder ein grosser Gesang..

Rainer Maria Rilke

O Leão e o Ratinho – Esopo


O leão estava dormindo na sombra de uma árvore na floresta, quando um ratinho subiu nas suas costas e escorregou pelo rosto dele. O leão acordou irritado e agarrou o ratinho com sua pata. O ratinho,  apavorado, implorou ao leão:

– Por favor, não me mate! Deixe-me ir e algum dia eu retribuirei.

O Leão riu muito da ideia de que um simples rato pudesse ajudá-lo, mas libertou o ratinho sem lhe fazer mal nenhum.

Alguns dias depois o leão caiu na rede de um caçador e não conseguia se libertar. Quanto mais se agitava, mais preso ficava. O leão começou a rugir desesperadamente e seus urros foram ouvidos na floresta inteira.

O ratinho também ouviu os urros e apareceu para ver o que estava acontecendo. Encontrou o leão debatendo-se na rede. Correu até uma das cordas e roeu até arrebentar as malhas.

O leão ficou livre e muito surpreso por um ratinho conseguir libertar o rei dos animais.

O leão e o ratinho para você colorir

 

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