Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

Desejo-te Tempo – Elli Michler

(pintura de Maxfield Parrish)

Não te desejo todos os presentes do mundo.
Apenas te desejo aquilo que mais falta faz:
Desejo-te tempo para rires e seres feliz,
e, se ajudar, para dares também algo em troca.

Desejo-te tempo para ações e pensamentos,
não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para pressas e correrias,
mas tempo para que brote a verdadeira felicidade.

Desejo-te tempo, não apenas para esbanjares.
Desejo que os teus dias transbordem
de momentos maravilhosos e de confiança absoluta,
em vez de te fixares na lentidão dos ponteiros do relógio.

Desejo-te tempo para alcançares as estrelas,
e tempo para cresceres, para atingires a plenitude.
Desejo-te tempo para novas esperanças, para viver.
Pois não adianta deixar esse tempo para depois.

Desejo-te tempo para descobrires
felicidade em cada hora, em cada dia.
Desejo-te tempo e até pessoas para perdoar.
Desejo simplesmente que tenhas tempo para viver.

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Poema original, em alemão: Ich wünsche dir Zeit

Ich wünsche dir nicht alle möglichen Gaben.
Ich wünsche dir nur, was die meisten nicht haben:
Ich wünsche dir Zeit, dich zu freun und zu lachen,
und wenn du sie nützt, kannst du etwas draus machen.

Ich wünsche dir Zeit für dein Tun und dein Denken,
nicht nur für dich selbst, sondern auch zum Verschenken.
Ich wünsche dir Zeit – nicht zum Hasten und Rennen,
sondern die Zeit zum Zufriedenseinkönnen.

Ich wünsche dir Zeit – nicht nur so zum Vertreiben.
Ich wünsche, sie möge dir übrig bleiben
als Zeit für das Staunen und Zeit für Vertraun,
anstatt nach der Zeit auf der Uhr nur zu schaun.

Ich wünsche dir Zeit, nach den Sternen zu greifen,
und Zeit, um zu wachsen, das heißt, um zu reifen.
Ich wünsche dir Zeit, neu zu hoffen, zu lieben.
Es hat keinen Sinn, diese Zeit zu verschieben.

Ich wünsche dir Zeit, zu dir selber zu finden,
jeden Tag, jede Stunde als Glück zu empfinden.
Ich wünsche dir Zeit, auch um Schuld zu vergeben.
Ich wünsche dir: Zeit zu haben zum Leben!

@-;–

I wish you time

I do not wish you all possible gifts.
I wish you only what most do not have:
I wish you time to be happy and to laugh,
and if you use it, you can make something of it.

I wish you time for your actions and your thinking,
not only for yourself but also to be given.
I wish you time – not to hast and to race,
but just time to be satisfied in peace.

I wish you time – not just to while away the time.
I hope you have too much of it:
time to be amazed and to trust,
rather than just having to look at the watch.

I wish you time to grasp for the stars,
and time to grow, that is to mature.
I wish you time, to hope, to love.
It makes no sense, to postpone this time.

I wish you time to find yourself,
to be happy every day, every hour.
I wish you time to forgive.
I wish you to have time to live!

Elli Michler

A Bruxa – Carlos Drummond de Andrade

(Rio de Janeiro, foto de Ben Tubby)

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto…
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

Carlos Drummond de Andrade

Poema Natural – Adalgisa Nery

(pintura de Maxfield Parrish)

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Adalgisa Nery

Mais Uma Vez – Roberto Carlos

(Roberto Carlos, Jovem Guarda, 1968)

Quando eu te amei pela primeira vez
Tudo era poesia
A juventude andava em nossos corpos
Em nossa fantasia
E eu te amei como um menino pode amar
E me perdi em sonhos
Quando você foi embora eu chorei
Como um menino sabe chorar
Quando eu te amei pela segunda vez
Já era um homem feito
E nos meus braços você foi mulher
Com todos os defeitos
E eu te amei como um adulto sabe amar
Com toda realidade
Quando você foi embora eu chorei
Como um homem não deve chorar

Quando a solidão
Revivendo as lembranças
Me fez sentir
Um resto de esperança
Você passou pela rua
E o passado voltou a lembrar seus abraços
E mais uma vez eu te amei
E lembrei de você linda e nua em meus braços
Quase que chamei você
Mas olhei pra mim mesmo e parei os meus passos
De tanta saudade percebi
Que um homem também sabe chorar

Composição de Maurício Duboc e Carlos Colla (1978)
Carlos Colla conheceu Roberto Carlos em 1970 e tornou-se um dos seus letristas preferidos. Escreveu mais de 40 canções para o Rei, entre elas “Falando Sério”, gravada em 1977.

O Guardador de Rebanhos I – Fernando Pessoa

shepherd
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Poesias em Retrospectiva – 2016

(Clique no poema para visualizar)

As Dez Poesias Brasileiras Mais Lidas no Ano:

O Sobrevivente – Carlos Drummond de Andrade
Emergência – Mário Quintana
Canção de Outono – Mário Quintana
Harpa III – Ao Sol – Joaquim de Souza Andrade
Momento – Mário de Andrade
A Rua dos Cataventos – Mário Quintana
Céu – Manuel Bandeira
Quero Apenas – Olga Savary
Amor Feinho – Adélia Prado
Amar e ser Amado – Castro Alves

As Dez Poesias Estrangeiras Mais Lidas no Ano:

Caminhante – Antonio Machado
O Tigre – William Blake
Augúrios de inocência – William Blake
Em Paz – Amado Nervo
Soneto XXII – Francesco Petrarca
Chuva Oblíqua I – Fernando Pessoa
Ode ao Outono – John Keats
Um amante fiel – Hafiz
Foi para ti que criei as rosas – Eugénio de Andrade
Sonetos do Português Nr. 43 – Elizabeth Barrett Browning

As Cinco Crônicas Mais Lidas no Ano:

A Morte Devagar – Martha Medeiros
Literaturazinha – Álvaro Moreyra
Instantes – Nadine Stair
Uma crônica de Moacyr Scliar
A Águia e A Galinha – James Aggrey

As Cinco Poesias Infantis Mais Lidas no Ano:

Leilão de Jardim – Cecília Meireles
Diversidade – Tatiana Belinky
São Francisco – Vinicius de Moraes
Trem de Ferro – Manuel Bandeira
O Canário e o Pardal – Pedro Bandeira

Os Cinco Vídeos Mais Populares no Ano:

Ode à Alegria – Friedrich Schiller
Foi Assim – Ruy Barata
Azulão – Manuel Bandeira
Words – Bee Gees
Corcovado – Antônio Carlos Jobim

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“A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem;
a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão;
a coragem, a mudá-las”.
(Santo Agostinho)

Receita de Ano Novo – Carlos Drummond de Andrade

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Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Os Pobres – Olavo Bilac

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(Órfão ao ganhar par de sapatos novos da Cruz Vermelha. Foto: Life Magazine, 1946)

Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, de pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai quando os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!

Guiai-lhe os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio do vossos braços,
Metade de vosso pão!

Não receies que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prêmio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão…

Olavo Bilac

Uma Saudação de Natal – Walt Whitman

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(Noite estrelada em Foz do Iguaçu, foto de Babak Tafreshi, NASA)

(De um grupo de estrelas do norte para seus pares do sul. 1889-90)

BEM-VINDO irmão brasileiro! Abriu-se teu amplo espaço,
Oferecemos a mão amiga, um sorriso vindo do Norte, uma saudação brilhante.
(Deixe o futuro falar por si, revelando suas dificuldades, sua bagagem,
É nossa, nossa a atual vibração, a busca da democracia, a aprovação e a fé)
A ti estendemos nossos braços, volvemos nossos pensamentos,
A ti dirigimos nosso olhar esperançoso,
Tu te unistes aos livres, Tu passastes a ter brilho próprio,
Tu aprendestes bem a verdadeira lição com as nações que brilham nos céus,
(Brilham mais que a Cruz e a Coroa),
Vamos chegar ao topo de toda a humanidade.

Walt Whitman

Nota: Ao ouvir a notícia de que outra república nascera nas Américas, o poeta americano Walt Whitman saúda a Nova República do Brasil através deste poema em sua comemoração.

“A Christmas Greeting” (From a Northern Star-Group to a Southern. 1889-90)

WELCOME, Brazilian brother–thy ample place is ready; A loving hand–a smile from the North–a sunny instant hail! (Let the future care for itself, where it reveals its troubles, impedimentas, Ours, ours, the present throe, the democratic aim, the acceptance and the faith;) To thee today our reaching arm, our turning neck–to thee from us the expectant eye, Thou cluster free! thou brilliant lustrous one! thou, learning well The true lesson of a nation’s light in the sky, (More shining than the Cross, more than the Crown,) The height to be superb humanity.

Fonte: Library of Congress, US

Quando Vier a Primavera – Fernando Pessoa

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(pintura de Maximilian Lenz)

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Poema interpretado por Pedro Lamares

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