Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

O Diabo e a Política – Carlos Heitor Cony

(Charge de Angeli)

Sempre que leio os jornais, lembro uma historinha que nem sei mais quem me contou. Naquela aldeia, todos roubavam de todos, matava-se, fornicava-se, jurava-se em falso, todos caluniavam todos. Horrorizado com os baixos costumes, o frade da aldeia resolveu dar o fora, pegou as sandálias, o bordão e se mandou.

Pouco adiante, já fora dos muros da aldeia, encontrou o Diabo encostado numa árvore, chapéu de palha cobrindo seus chifres. Tomava água de coco por um canudinho, na mais completa sombra e água fresca desde que se revoltara contra o Senhor, no início dos tempos.

O frade ficou admirado e interpelou o Diabo:

– O que está fazendo aí nesta boa vida? Eu sempre pensei que você estaria lá na aldeia, infernizando a vida dos outros. Tudo de ruim que anda por lá era obra sua – assim eu pensava até agora. Vejo que estava enganado. Você não quer nada com o trabalho. Além de Diabo, você é um vagabundo!

Sem pressa, acabando de tomar o seu coco pelo canudinho, o Diabo olhou para o frade com pena:

– Para quê? Trabalho desde o início dos tempos para desgraçar os homens e confesso que ando cansado. Mas não tinha outro jeito. Obrigação é obrigação, sempre procurei dar conta do recado. Mas agora, lá na aldeia, o pessoal resolveu se politizar. É partido pra lá, partido pra cá, todos têm razão, denúncias, inquéritos, invocam a ética, a transparência, é um pega-pra-capar generalizado, eu estava sobrando, não precisavam mais de mim para serem o que são, viverem no inferno em que vivem.

Jogou o coco fora e botou um charuto na boca. Não precisou de fósforo, bastou dar uma baforada e de suas entranhas saiu o fogo que acendeu o charuto:

– Tem sido assim em todas as aldeias. Quando entra a política eu dou o fora, não precisam mais de mim.

Carlos Heitor Cony
Folha de São Paulo, 29 de novembro de 2005

Talvez – Pablo Neruda

(pintura de Bryce Cameron Liston)

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda

(Everything I Do) I Do It for You – Bryan Adams

(Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões)

Look into my eyes
You will see what you mean to me
Just search your heart, search your soul
And when you find me there
You’ll search no more

Don’t tell me
It’s not worth trying for
You can’t tell me

It’s not worth dying for
You know it’s true
Everything I do, I do it for you

Just look into your heart
And you will find
There’s nothing there to hide
Just take me as I am, take my life
I would give it all
I would sacrifice

Don’t tell me
It’s not worth fighting for
I can’t help it
There’s nothing I want more
You know it’s true
Everything I do, I do it for you

There’s no love like your love
And no other could give more love
There’s nowhere, unless you’re there
All the time, all the way yeah

Oh, you can’t tell me
It’s not worth fighting for
I can’t help it
There’s nothing I want more
I would fight for you
I’d lie for you
Walk the wild for you
Yeah, I’d die for you

You know it’s true
Everything I do, ooooh,
I do it for you

“(Everything I Do) I Do It for You” é uma canção escrita por Bryan Adams, Michael Kamen e Robert Lange, gravada por Bryan Adams em 1991. Trilha sonora do filme Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões “Robin Hood: Prince of Thieves”, a música foi indicada para o Oscar de Melhor Canção, mas perdeu para “Beauty & the Beast”. Em 1992, ganhou o Grammy Awards de melhor canção escrita especificamente para um filme. Este é um dos singles mais bem sucedidos de todos os tempos, vendendo mais de 3 milhões de cópias.


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Tradução: (Tudo o que eu faço) Eu faço por você

Olhe nos meus olhos
Você verá o que você significa pra mim
Procure em seu coração, procure em sua alma
E quando você me achar lá
Não irá mais procurar

Não me diga
Que não vale a pena tentar
Você não pode me dizer
Que não vale a pena morrer
Você sabe que é verdade
Tudo que eu faço, eu faço por você

Olhe dentro de seu coração
Você irá encontrar
Não há nada lá para esconder
Aceite-me como eu sou, leve minha vida
Eu poderia largar tudo
Eu sacrificaria

Não me diga
Que não vale a pena lutar
Não posso evitar
Não há nada que eu queira mais
Você sabe que é verdade
Tudo que eu faço, eu faço por você

Não há amor, como o seu amor
E nenhum outro poderia me dar mais amor
Não há lugar nenhum, sem que você esteja nele
Todo o tempo, em todo caminho!

Oh, você não pode me dizer
Que não vale a pena lutar
Não posso evitar
Não há nada que eu queira mais
Eu lutaria por você
Eu mentiria por você
Caminharia no deserto por você
Yeah, eu morreria por você

Você sabe que é verdade
Tudo que eu faço, oooh
Eu faço por você

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A Rua – Cassiano Ricardo

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(pintura de Guerrino Guardabassi)

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

Cassiano Ricardo

Dois no Crepúsculo – Eugenio Montale


Entre tu e eu flui no mirante
uma claridade subaquática que deforma
o perfil das colinas e o teu rosto.
Contra um desfocado fundo, recorta-se
cada um de teus gestos; chega sem deixar rastro,
e desaparece, no espaço que preenche
cada sulco e se fecha quando passas:
tu comigo aqui, neste ar que desce
para selar
o som das pedras.

E eu, subjugado

às forças que pesam em volta, sucumbo
ao sortilégio de não reconhecer
nada mais de mim fora de mim: se ergo
apenas o braço, muda-se
o ato, estilhaçado cristal, desconhecida
e desbotada sua memória, e o gesto
já não me pertence;
se falo, escuto atônito aquela voz
descer até seus registros mais remotos
ou apagada no ar que não a sustenta.

Assim até a hora que resiste ao último
espasmo do dia
dura o desvario; depois um sopro
reanima os vales num frenético
movimento e retira da folhagem um agudo
som que se dispersa
em breves baforadas e as primeiras luzes
desenhar os cais.

…as palavras

caem leves entre nós. Olho-te
num suave revérbero. Não sei
se te conheço; sei que nunca estive tão apartado
de ti como neste tardio
retorno. Poucos instantes queimaram
tudo de nós: tudo menos duas faces, duas
máscaras que, com esforço, se entalham
um sorriso.

Eugenio Montale
Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti

@-;–

Poema original, em italiano: Due nel Crepuscolo

Fluisce fra te e me sul belvedere
un chiarore subacqueo che deforma
col profilo dei colli anche il tuo viso.
Sta in un fondo sfuggevole, reciso
da te ogni gesto tuo; entra senz’orma,
e sparisce, nel mezzo che ricolma
ogni solco e si chiude sul tuo passo:
con me tu qui, dentro quest’aria scesa
a sigillare
il torpore dei massi.

Ed io riverso

nel potere che grava attorno, cedo
al sortilegio di non riconoscere
di me più nulla fuor di me; s’io levo
appena il braccio, mi si fa diverso
l’atto, si spezza su un cristallo, ignota
e impallidita sua memoria, e il gesto
già più non m’appartiene;
se parlo, ascolto quella voce attonito,
scendere alla sua gamma più remota
o spenta all’aria che non la sostiene.

Tale nel punto che resiste all’ultima
consunzione del giorno
dura lo smarrimento; poi un soffio
risolleva le valli in un frenetico
moto e deriva dalle fronde un tinnulo
suono che si disperde
tra rapide fumate e i primi lumi
disegnano gli scali.

…le parole

tra noi leggere cadono. Ti guardo
in un molle riverbero. Non so
se ti conosco; so che mai diviso
fui da te come accade in questo tardo
ritorno. Pochi istanti hanno bruciato
tutto di noi: fuorchè due volti, due
maschere che s’incidono, sforzate,
di un sorriso.

Eugenio Montale

O Rochedo – Mikhail Lermontov


A nuvem de ouro dorme a noite inteira
no seio do gigântico rochedo.
Pela manhã, levanta-se bem cedo,
e descuidada vai-se pelos céus, ligeira.

Mas lá restou de orvalho um breve traço
nas rugas do penedo solitário.
E é como se ele ficara multivário
chorando suavemente ante o vazio espaço.

Mikhail Lermontov
Tradução de Jorge de Sena

@-;–

Poema original, em russo: Утес

Ночевала тучка золотая
На груди утеса-великана;
Утром в путь она умчалась рано,
По лазури весело играя.

Но остался влажный след в морщине
Старого утеса. Одиноко
Он стоит, задумался глубоко,
И тихонько плачет он в пустыне.

Mikhail Lermontov

@-;–

The Cliff

A golden cloud took one night’s rest
Upon a great cliff’s stony chest.
By sunrise she had flown away
In the bright blue her games to play.

But in the giant’s wrinkled brow
A humid trace remained; and now,
Immersed in thought, alone, he stands
And softly weeps upon the sands.

Mikhail Lermontov
Translation by Masha Blokh

Desejo-te Tempo – Elli Michler

(pintura de Maxfield Parrish)

Não te desejo todos os presentes do mundo.
Apenas te desejo aquilo que mais falta faz:
Desejo-te tempo para rires e seres feliz,
e, se ajudar, para dares também algo em troca.

Desejo-te tempo para ações e pensamentos,
não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para pressas e correrias,
mas tempo para que brote a verdadeira felicidade.

Desejo-te tempo, não apenas para esbanjares.
Desejo que os teus dias transbordem
de momentos maravilhosos e de confiança absoluta,
em vez de te fixares na lentidão dos ponteiros do relógio.

Desejo-te tempo para alcançares as estrelas,
e tempo para cresceres, para atingires a plenitude.
Desejo-te tempo para novas esperanças, para viver.
Pois não adianta deixar esse tempo para depois.

Desejo-te tempo para descobrires
felicidade em cada hora, em cada dia.
Desejo-te tempo e até pessoas para perdoar.
Desejo simplesmente que tenhas tempo para viver.

@-;–

Poema original, em alemão: Ich wünsche dir Zeit

Ich wünsche dir nicht alle möglichen Gaben.
Ich wünsche dir nur, was die meisten nicht haben:
Ich wünsche dir Zeit, dich zu freun und zu lachen,
und wenn du sie nützt, kannst du etwas draus machen.

Ich wünsche dir Zeit für dein Tun und dein Denken,
nicht nur für dich selbst, sondern auch zum Verschenken.
Ich wünsche dir Zeit – nicht zum Hasten und Rennen,
sondern die Zeit zum Zufriedenseinkönnen.

Ich wünsche dir Zeit – nicht nur so zum Vertreiben.
Ich wünsche, sie möge dir übrig bleiben
als Zeit für das Staunen und Zeit für Vertraun,
anstatt nach der Zeit auf der Uhr nur zu schaun.

Ich wünsche dir Zeit, nach den Sternen zu greifen,
und Zeit, um zu wachsen, das heißt, um zu reifen.
Ich wünsche dir Zeit, neu zu hoffen, zu lieben.
Es hat keinen Sinn, diese Zeit zu verschieben.

Ich wünsche dir Zeit, zu dir selber zu finden,
jeden Tag, jede Stunde als Glück zu empfinden.
Ich wünsche dir Zeit, auch um Schuld zu vergeben.
Ich wünsche dir: Zeit zu haben zum Leben!

@-;–

I wish you time

I do not wish you all possible gifts.
I wish you only what most do not have:
I wish you time to be happy and to laugh,
and if you use it, you can make something of it.

I wish you time for your actions and your thinking,
not only for yourself but also to be given.
I wish you time – not to hast and to race,
but just time to be satisfied in peace.

I wish you time – not just to while away the time.
I hope you have too much of it:
time to be amazed and to trust,
rather than just having to look at the watch.

I wish you time to grasp for the stars,
and time to grow, that is to mature.
I wish you time, to hope, to love.
It makes no sense, to postpone this time.

I wish you time to find yourself,
to be happy every day, every hour.
I wish you time to forgive.
I wish you to have time to live!

Elli Michler

A Bruxa – Carlos Drummond de Andrade

(Rio de Janeiro, foto de Ben Tubby)

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto…
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

Carlos Drummond de Andrade

Poema Natural – Adalgisa Nery

(pintura de Maxfield Parrish)

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

Adalgisa Nery

Mais Uma Vez – Roberto Carlos

(Roberto Carlos, Jovem Guarda, 1968)

Quando eu te amei pela primeira vez
Tudo era poesia
A juventude andava em nossos corpos
Em nossa fantasia
E eu te amei como um menino pode amar
E me perdi em sonhos
Quando você foi embora eu chorei
Como um menino sabe chorar
Quando eu te amei pela segunda vez
Já era um homem feito
E nos meus braços você foi mulher
Com todos os defeitos
E eu te amei como um adulto sabe amar
Com toda realidade
Quando você foi embora eu chorei
Como um homem não deve chorar

Quando a solidão
Revivendo as lembranças
Me fez sentir
Um resto de esperança
Você passou pela rua
E o passado voltou a lembrar seus abraços
E mais uma vez eu te amei
E lembrei de você linda e nua em meus braços
Quase que chamei você
Mas olhei pra mim mesmo e parei os meus passos
De tanta saudade percebi
Que um homem também sabe chorar

Composição de Maurício Duboc e Carlos Colla (1978)
Carlos Colla conheceu Roberto Carlos em 1970 e tornou-se um dos seus letristas preferidos. Escreveu mais de 40 canções para o Rei, entre elas “Falando Sério”, gravada em 1977.

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