Poesias Preferidas

Seleção de Poesias

Duas Dúzias de Coisinhas à Toa Que Deixam a Gente Feliz – Otávio Roth

(ilustração de Andrew Ferez)

Passarinho na janela,
pijama de flanela,
brigadeiro na panela.

Gato andando no telhado,
cheirinho de mato molhado,
disco antigo sem chiado.

Pão quentinho de manhã,
drops de hortelã,
grito do Tarzan.

Tirar a sorte no osso,
jogar pedrinha no poço,
um cachecol no pescoço.

Papagaio que conversa,
pisar em tapete persa,
eu te amo e vice-versa.

Vaga-lume aceso na mão,
dias quentes de verão,
descer pelo corrimão.

Almoço de domingo,
revoada de flamingo,
herói que fuma cachimbo.

Anãozinho de jardim,
lacinho de cetim,
terminar o livro assim.

Otávio Roth

(Este lindo desenho é para você imprimir e colorir)

Dance with My Father – Luther Vandross


Back when I was a child
Before life removed all the innocence
My father would lift me high
And dance with my mother and me and then
Spin me around ‘til I fell asleep
Then up the stairs he would carry me
And I knew for sure I was loved
If I could get another chance, another walk
Another dance with him

I’d play a song that would never, ever end
How I’d love, love, love
To dance with my father again
When I and my mother would disagree
To get my way, I would run from her to him
He”d make me laugh just to comfort me
Then finally make me do just what my mama said
Later that night when I was asleep
He left a dollar under my sheet
Never dreamed that he would be gone from me
If I could steal one final glance, one final step
One final dance with him

I”d play a song that would never, ever end
‘Cause I”d love, love, love
To dance with my father again
Sometimes I”d listen outside her door
And I’d hear how my mother cried for him
I pray for her even more than me
I pray for her even more than me
I know I”m praying for much too much
But could you send back the only man she loved
I know you don”t do it usually
But dear Lord she”s dying
To dance with my father again
Every night I fall asleep and this is all I ever dream

Composição de Luther Vandross com a ajuda de Richard Marx (2003).
A música é uma homenagem de Luther Vandross ao seu pai, que morreu quando ele tinha 7 anos e sua lembrança mais pungente era a de que seu pai costumava dançar com os filhos e sua mãe. A letra, tocante, traz essas memórias singelas da infância. Luther Vandross escreveu esta música pouco depois de ter sofrido um AVC e estava internado na ocasião do lançamento, por isso o clipe foi gravado com imagens da sua infância e amigos, fãs, cantores, atores e astros do esporte, que o homenagearam no vídeo. Luther morreu dois anos depois e esta é uma de suas últimas composições. No Grammy Awards de 2003, Dance with my father foi nomeada “Song of the Year” e “Best Male R & B Vocal Performance”. Foi cantada também por Céline Dion, Steve Brookstein, Scott Savol, Joe McElderry, Kellie Coffey e Tamyra Grayduring.


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Tradução: Dança com meu pai  Continuar lendo

Poema simples – Adalgisa Nery

(pintura de Sir Lawrence Alma Tadema)

Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos jardins da noite,
Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes da terra,
Deixa-me recolher a estrela úmida
Antes que sua luz desapareça na madrugada,
Deixa-me recolher a tristeza da alma
Antes que a lágrima banhe a pálpebra
Do órfão abandonado e faminto,
Deixa-me recolher a ternura parada
No coração da mulher que desejou ser mãe.
Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam,
Recolher o que ainda não passou
E mais do que tudo dá-me a recolher
A palavra de amor e de doçura para que reparta
Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel
Caindo na alma e no coração,
Como a única luz dentro de tanta escuridão.

Adalgisa Nery

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas – Walt Whitman

(pintura de Peder Mork Monsted)

Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

Walt Whitman

@-;–

All truths wait in all things,
They neither hasten their own delivery nor resist it,
They do not need the obstetric forceps of the surgeon,
The insignificant is as big to me as any,
(What is less or more than a touch?)
Logic and sermons never convince,

The damp of the night drives deeper into my soul.
(Only what proves itself to every man and woman is so,
Only what nobody denies is so.)

A minute and a drop of me settle my brain,
I believe the soggy clods shall become lovers and lamps,
And a compend of compends is the meat of a man or woman,
And a summit and flower there is the feeling they have for each other,
And they are to branch boundlessly out of that lesson until it
becomes omnific,
And until one and all shall delight us, and we them.

Walt Whitman

Versos Memoriais – Alexander Herzog


Senti uns versos n’ alma e me saíram da mão
Olhos brilhavam, eu então queria escrevê-los
Antes algo tocou-me fundo o coração
Figuras, no emergir, eriçaram os pelos

Pensei n’ algum versar silente sobre amor
Mas sem que houvesse ruído, encaixado e mansinho
Rebolando, ritmado, os dois em tom de ardor
Variando de lado ante impudor e carinho

Cálidos versos eu deixei escritos pra ti,
Depois daquela noite, a cópula dos corpos
Mesclados no prazer, logo após qu’ eu parti

Levei versos comigo, hoje, em meu coração
Na minha mente o êxtase, o regalo em teu copo
Que carrega no ventre, o deleite e paixão

Alexander Herzog

Dá Meia-Noite – Joaquim de Sousa Andrade


Dá meia-noite em céu azul-ferrete
Formosa espádua a lua
Alveja nua,
E voa sobre os templos da cidade.

Nos brancos muros se projetam sombras;
Passeia a sentinela
À noite bela
Opulenta da luz da divindade.

O silêncio respira; almos frescores
Meus cabelos afagam;
Gênis vagam,
De alguma fada no ar andando à caça.

Adormeceu a virgem; dos espíritos
Jaz nos mundos risonhos –
Fora eu os sonhos
Da bela virgem… uma nuvem passa.

Sousândrade

The Sound of Music – Julie Andrews

(Julie Andrews em A Noviça Rebelde – 1965)

The hills are alive with the sound of music
With songs they have sung for a thousand years
The hills fill my heart with the sound of music
My heart wants to sing every song it hears

My heart wants to beat like the wings of the birds
That rise from the lake to the trees
My heart wants to sigh like a chime that flies
From a church on a breeze
To laugh like a brook when it trips and falls over
Stones on its way
To sing through the night like a lark who is learning to pray

I go to the hills when my heart is lonely
I know I will hear what I’ve heard before
My heart will be blessed with the sound of music
And I´ll sing once more

“The Sound of Music”, entitulado “A Noviça Rebelde” no Brasil, é um drama musical americano de 1965. O filme é uma adaptação do musical de Broadway de 1959, baseado no livro The Story of the Trapp Family Singers, com músicas compostas por Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II e premiado em cinco categorias Tony Awards e prêmio Grammy Award de melhor musical. O filme, dirigido por Robert Wise, foi tão popular em todo o mundo, que quebrou todos os recordes anteriores de bilheteria em vinte e nove países, sendo vencedor do Oscar nas categorias de melhor filme, melhor diretor, melhor montagem, melhor som e melhor trilha sonora e vencedor do Globo de Ouro nas categorias de melhor filme e melhor atriz (Julie Andrews), consagrado como o musical de maior sucesso na história do cinema.

Mais de 50 anos depois, a música continua mostrando sua força!


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Tradução: O Som da Música

As colinas estão vivas com o som da música
Com canções que se cantam há milhares de anos
As colinas enchem meu coração com o som da música
Meu coração quer cantar todas canções que ouve

Meu coração quer bater
Como as asas dos pássaros
Que se erguem do lago às árvores
Meu coração quer suspirar
Como as batidas de um carrilhão que voa
de uma igreja numa brisa

Quer rir como um riacho
Quando ele tropeça e cai
Sobre as pedras em seu caminho
Para cantar noite adentro
Como uma cotovia que está aprendendo a rezar

Eu vou até as colinas quando meu coração está solitário
Eu sei que ouvirei o que já ouvi antes
Meu coração será abençoado com o som da música
E eu cantarei mais uma vez

Num Jardim Adornado de Verdura – Luís Vaz de Camões

(pintura de William Adolphe Bouguereau)

Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores,
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.

Diana tomou logo uma rosa pura,
Vênus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violetas, na graça e formosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual daquelas três flores tomaria,
Por mais suave e pura, e mais formosa.

Sorrindo-se, o Menino lhe tornava:
Todas formosas são, mas eu queria
Violeta antes que lírio, nem que rosa.

Luís Vaz de Camões

Ela Caminha em Beleza – Lord Byron

(pintura de John William Godward)

Ela caminha em beleza como a noite
De clima sem nuvens e céu estrelado;
E toda a perfeição da escuridão e da luz encontra-se
Em seu semblante e seus olhos
Dessa forma enternecida até esta luz suave
Que os céus ao dia fúlgido negam.

Uma sombra a mais, um raio a menos
Teria parcialmente danificado a indescritível beleza
Que ondula em cada negra trança de seu cabelo
E ternamente brilha em seu rosto;
Onde os pensamentos serenamente expressam
Quão puro, quão querido é o lugar que habitam.

E nessa face, e sobre essa fronte
Tão gentil, tão suave contudo eloqüente,
Jazem o sorriso que conquista, as cores que dardejam
Mas que falam de dias em benevolência passados
Uma mente em paz com tudo
Um coração cujo amor é inocente!

Lord Byron
Tradução Wagner Primo

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She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellow’d to that tender light
Whin heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.

And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!

Lord Byron

O Coração Risonho – Charles Bukowski


Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Charles Bukowski

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The Laughing Heart

your life is your life
don’t let it be clubbed into dank submission.
be on the watch.
there are ways out.
there is light somewhere.
it may not be much light but
it beats the darkness.
be on the watch.
the gods will offer you chances.
know them.
take them.
you can’t beat death but
you can beat death in life, sometimes.
and the more often you learn to do it,
the more light there will be.
your life is your life.
know it while you have it.
you are marvelous
the gods wait to delight
in you.

Charles Bukowski

L’après-midi d’un Faune – Stéphane Mallarmé

(pintura de Pál Szinyei Merse)

Um marco na história do simbolismo na literatura francesa, “L’Après-midi d’un faune” é considerado um dos maiores poemas da literatura da França (1876). O poema conta a história de um fauno que toca a sua flauta nos bosques, tentando alcançar, em vão, as ninfas e náiades que ali passeiam. Extenuado, o fauno cai num sono profundo, logrando nos seus sonhos o que a realidade lhe negara.
O poema de Mallarmé serviu de inspiração para a composição do poema sinfônico “Prélude à l’après-midi d’un faune”, de Claude Debussy (1894), um dos expoentes da música impressionista e para o balé de Vaslav Nijinsky (1912), um dos primeiros balés modernos.
A seguir, seguem a tradução do poema por Décio Pignatari, vídeo do poema sinfônico de Debussy e o poema original, em francês, do poeta Stéphane Mallarmé.

@-;–

A tarde de um fauno

Quero perpetuar essas ninfas.

Tão claro

Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Espesso de mormaço e sonos.

Sonhei ou…

Borra de muita noite, a dúvida se acaba
Em mil ramos sutis a imitar a mata,
Prova infeliz de que eu sozinho me ofertava
À guisa de triunfo a ausência ideal das rosas.

(pintura de Bouguereau – detalhe)

Reflitamos…
E se essas moças, minhas glosas,
Não passarem de sonho e senso fabulosos?
Fauno, dos olhos da mais casta, azuis e frios,
Flui a ilusão com uma fonte em prantos, rios:
Mas, em contraste, o hálito da outra, arfante,
Não é o sopro de um dia quente nos teus pelos?
Mas, não! No pasmo exausto e imóvel, a manhã
Se debate em calor para manter-se fresca
E água não canta que da avena eu não derrame
No bosque irrigado de acordes – e o só sopro
Que flui da flauta dupla prestes a exalar-se
Pronto a extinguir-se antes que se disperse em chuva
Estéril, é somente o sopro no horizonte
Sem uma ruga a perturbá-lo, da visível
E calma inspiração artificial do céu.

Ó orla siciliana das baixadas calmas,
Que êmula de sóis, minha vaidade pilha,
Sob centelhas de flores, taciturno, CONTE
“Que aqui com arte e engenho vinha eu domar
Caules ocos no glauco ouro azul de longínquos
Verdes, às fontes dedicando seus vinhedos,
E ondulava um brancor animal em repouso:
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
Este vôo de cisnes, ou náiades! foge
Ou mergulha…
Arde a tarde inerte na hora fulva
Sem traço da arte vária pela qual fugiu
Tanta núpcia ansiada por quem busca o la:
Despertarei então à devoção primeira,
De pé e só sob uma luz que flui de outrora,
Lírio! e um de vós todos pela ingenuidade.

Mais que esse doce nada, arrulho de seus lábios
O beijo que, bem baixo, é perfídia segura,
Atesta uma mordida este meu seio virgem,
Misteriosa marca de algum dente augusto;
Mas, chega! que esse arcano elege por amigo
O junco vasto e gêmeo sob o céu tocado:
Ei-lo que chama a si a turbação da face
E num extenso solo sonha que entretemos
A beleza ao redor, mediante confusões
Falsas entre ela própria e o nosso canto crédulo –
E tanto quanto alcance um módulo amoroso
Faz que se esvaia a ilusão banal de dorso
Ou de lado, seguidos pelo olhar sem ver,
Uma linha monótona, sonora e vã.

Volta, pois, instrumento de fugas, maligna
Flauta, a reflorescer nos lagos onde me ouves:
Do meu tropel cioso, irei falar de deusas
Por muito tempo – e em muita pintura profana
À sua sombra hei ainda hei de enlaçar cinturas;
E quando a luz das uvas tenha eu sorvido
Banindo um dissabor por fingimento oculto,
Gozador, ao verão do céu oferto os bagos
E soprando nas peles translúcidas, ávido
E ébrio, fico olhando através até a noite.

(pintura de Alexandre Cabanel)

Reavivemos, ninfas, LEMBRANÇAS diversas.
“Pelos juncos, o olhar violava as colinas
Imortais, que afogam na onda a queimadura,
Soltando gritos de ira contra o céu da mata;
E o banho esplendoroso dos cabelos some
Em calafrios e claridades, pedrarias!
Precipito-me – e eis a meus pés, enroscadas
Langorosas haurindo esse mal de ser dois,
Duas carnes dormindo entre os braços do acaso:
Sem desfazer o enlace, arrebato-as e alcanço
Rumo a esse alcatife, odiado pela frívola
Sombra, de rosas desperfumando-se ao sol,
Para esse embate igual ao dia que se consome.
Ó cólera das virgens, eu te adoro, gozo
Feroz do fardo nu e sagrado que se esquiva,
Fugindo à boca em água ardente, quando um raio
Faz tremer! o temor mais secreto da carne:
Dos pés da desumana ao peito da mais tímida
Que a pureza abandona, orvalhada ora por
Lágrimas tristes ou não tão tristes vapores.
Meu crime foi o de ter, contente de vencer
Temores infiéis, partido ao meio a moita
De beijos, pelos deuses tão bem guarnecida;
Sob as pregas felizes de uma só (guardando
Com simples dedo, a fim que o seu candor de pena
Se maculasse na emoção de sua irmã –
Aquela que é pequena, ingênua e não se peja:)
Que de meus braços moles por delíquios vagos
Liberta-se essa presa para sempre ingrata,
Sem pena do soluço ainda em mim cativo.

Azar! Hão de arrastar-me outras ao prazer,
As tranças emaranhando aos chifres desta fronte:
Tu sabes, vida minha: púrpura e madura
Toda romã estala em zumbidos de abelhas;
E o nosso sangue, amante de quem vai sugá-lo,
Escorre pelo eterno enxame do desejo.
Na hora em que se banha o bosque em cinza e ouro,
Uma festa se exalta na ramada extinta:
Etna! É em meio a ti, visitado por Vênus,
Pousando em tua lava o calcanhar ingênuo
Se troa um sono triste ou desfalece a flama.
Minha, a rainha!
Ó, punição…
Não, mas a alma

Vazia de palavras e este corpo espesso
Tarde sucumbem ao silêncio meridiano:
Sem mais, dormir no esquecimento da blasfêmia,
Na areia ressupino e sedento – e sequioso
Oferecer a boca ao astro audaz dos vinhos!

Ninfas, adeus: vou ver a sombra que vos tornais.

Vaslav Nijinsky no ballet l’après-midi d’un faune (1912)

O poema sinfônico de Debussy “Prélude à l’après-midi d’un faune”:

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L’après-midi d’un Faune du poète Stéphane Mallarmé:

Ces nymphes, je les veux perpétuer.
Si clair,
Leur incarnat léger qu’il voltige dans l’air
Assoupi de sommeils touffus.
Aimai-je un rêve ?

Mon doute, amas de nuit ancienne, s’achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois mêmes, prouve, hélas ! que bien seul je m’offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses.

Réfléchissons…
ou si les femmes dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux !
Faune, l’illusion s’échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste :
Mais, l’autre tout soupirs, dis-tu qu’elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison !
Que non ! par l’immobile et lasse pâmoison
Suffoquant de chaleurs le matin frais s’il lutte,
Ne murmure point d’eau que ne verse ma flûte
Au bosquet arrosé d’accords ; et le seul vent
Hors des deux tuyaux prompt à s’exhaler avant
Qu’il disperse le son dans une pluie aride,
C’est, à l’horizon pas remué d’une ride,
Le visible et serein souffle artificiel
De l’inspiration, qui regagne le ciel.

Ô bords siciliens d’un calme marécage
Qu’à l’envi des soleils ma vanité saccage,
Tacite sous les fleurs d’étincelles, CONTEZ
» Que je coupais ici les creux roseaux domptés
» Par le talent ; quand, sur l’or glauque de lointaines
» Verdures dédiant leur vigne à des fontaines,
» Ondoie une blancheur animale au repos :
» Et qu’au prélude lent où naissent les pipeaux,
» Ce vol de cygnes, non ! de naïades se sauve
» Ou plonge.. »
Inerte, tout brûle dans l’heure fauve
Sans marquer par quel art ensemble détala
Trop d’hymen souhaité de qui cherche le la :
Alors m’éveillerai-je à la ferveur première,
Droit et seul, sous un flot antique de lumière,
Lys ! et l’un de vous tous pour l’ingénuité.

Autre que ce doux rien par leur lèvre ébruité,
Le baiser, qui tout bas des perfides assure,
Mon sein, vierge de preuve, atteste une morsure
Mystérieuse, due à quelque auguste dent ;
Mais, bast ! arcane tel élut pour confident
Le jonc vaste et jumeau dont sous l’azur on joue :
Qui, détournant à soi le trouble de la joue
Rêve, dans un solo long que nous amusions
La beauté d’alentour par des confusions
Fausses entre elle-même et notre chant crédule ;
Et de faire aussi haut que l’amour se module
Évanouir du songe ordinaire de dos
Ou de flanc pur suivis avec mes regards clos,
Une sonore, vaine et monotone ligne.

Tâche donc, instrument des fuites, ô maligne
Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m’attends !
Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps
Des déesses ; et, par d’idolâtres peintures,
A leur ombre enlever encore des ceintures :
Ainsi, quand des raisins j’ai sucé la clarté,
Pour bannir un regret par ma feinte écarté,
Rieur, j’élève au ciel d’été la grappe vide
Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide
D’ivresse, jusqu’au soir je regarde au travers.

Ô nymphes, regonflons des SOUVENIRS divers.
» Mon œil, trouant les joncs, dardait chaque encolure
» Immortelle, qui noie en l’onde sa brûlure
» Avec un cri de rage au ciel de la forêt ;
» Et le splendide bain de cheveux disparaît
» Dans les clartés et les frissons, ô pierreries !
» J’accours ; quand, à mes pieds, s’entrejoignent (meurtries
» De la langueur goûtée à ce mal d’être deux)
» Des dormeuses parmi leurs seuls bras hasardeux ;
» Je les ravis, sans les désenlacer, et vole
» A ce massif, haï par l’ombrage frivole,
» De roses tarissant tout parfum au soleil,
» Où notre ébat au jour consumé soit pareil.
Je t’adore, courroux des vierges, ô délice
Farouche du sacré fardeau nu qui se glisse,
Pour fuir ma lèvre en feu buvant, comme un éclair
Tressaille ! la frayeur secrète de la chair :
Des pieds de l’inhumaine au cœur de la timide
Que délaisse à la fois une innocence, humide
De larmes folles ou de moins tristes vapeurs.
» Mon crime, c’est d’avoir, gai de vaincre ces peurs
» Traîtresses, divisé la touffe échevelée
» De baisers que les dieux gardaient si bien mêlée ;
» Car, à peine j’allais cacher un rire ardent
» Sous les replis heureux d’une seule (gardant
» Par un doigt simple, afin que sa candeur de plume
» Se teignît à l’émoi de sa sœur qui s’allume,
» La petite, naïve et ne rougissant pas:)
» Que de mes bras, défaits par de vagues trépas,
» Cette proie, à jamais ingrate, se délivre
» Sans pitié du sanglot dont j’étais encore ivre.

Vaslav Nijinsky como fauno, 1912

Tant pis ! vers le bonheur d’autres m’entraîneront
Par leur tresse nouée aux cornes de mon front :
Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,
Chaque grenade éclate et d’abeilles murmure ;
Et notre sang, épris de qui le va saisir,
Coule pour tout l’essaim éternel du désir.
A l’heure où ce bois d’or et de cendres se teinte.
Une fête s’exalte en la feuillée éteinte :
Etna ! c’est parmi toi visité de Vénus
Sur ta lave posant ses talons ingénus,
Quand tonne un somme triste ou s’épuise la flamme.
Je tiens la reine !
O sûr châtiment..
Non, mais l’âme

De paroles vacante et ce corps alourdi
Tard succombent au fier silence de midi :
Sans plus il faut dormir en l’oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j’aime
Ouvrir ma bouche à l’astre efficace des vins !

Couple, adieu ; je vais voir l’ombre que tu devins.

Stéphane Mallarmé

Daqui Pra Lá de Lá Pra Cá – Torquato Neto


Era um pacato cidadão sem documento
Não tinha nome profissão não tinha tempo
Mas certo dia deu-se um caso
E ele embarcou num disco
E foi levado pra bem longe
Do asterisco em que vivemos

Ele partiu e não voltou
E não voltou porque não quis
Quero dizer ficou por lá
Já que por lá se é mais feliz

E um espaçograma ele enviou
Pra quem quisesse compreender
Mas ninguém nunca decifrou
O que ele nos mandou dizer
Terra mar e ar atenção
O futuro é hoje e cabe na palma da mão

Para azar de quem não sabe e não crê
Que se pode sempre a sorte escolher
E enterrar qualquer estrela no chão
Viet vista visão viet vista visão

Terra mar e ar atenção
Fica a morte por medida
Fica a vida por prisão

Torquato Neto
Poema musicado por Raimundo Fagner e Zeca Baleiro

Pesquisa Fracassada


A ONU resolveu fazer uma grande pesquisa mundial. A pergunta era a seguinte:

“Por favor, diga honestamente, qual é sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo?”

O resultado foi um fracasso.

Os europeus não entenderam o que é “escassez”.
Os africanos não sabiam o que eram “alimentos”.
Os argentinos não sabiam o significado de “por favor”.
Os norte-americanos perguntaram o significado de “o resto do mundo”.
Os cubanos estranharam e pediram maiores explicações sobre “opinião”.
O Congresso brasileiro ainda está debatendo o que é “honestamente”.

Autor desconhecido

O Teu Começo – Cecília Meireles

(Arte digital de Christian Schloe)

O teu começo vem de muito longe.
O teu fim termina no teu começo.
Contempla-te em redor.
Compara.
Tudo é o mesmo.
Tudo é sem mudança.
Só as cores e as linhas mudaram.
Que importa as cores, para o Senhor da Luz?
Dentro das cores a luz é a mesma.
Que importa as linhas, para o Senhor do Ritmo?
Dentro das linhas o ritmo é igual.
Os outros vêem com os olhos ensombrados.
Que o mundo perturbou.
Com as novas formas,
Com as novas tintas.
Tu verás com os teus olhos.
Em Sabedoria.
E verás muito além.

Cântico XXI, Cecília Meireles

I Hope You Dance – Ronan Keating

(cena do filme Diário de uma paixão)

I hope you never lose your sense of wonder
You get your fill to eat but always keep that hunger
May you never take one single breath for granted
God forbid love ever leave you empty handed
I hope you still feel small when you stand beside the ocean
Whenever one door closes I hope one more opens
Promise me that you’ll give faith a fighting chance
And when you get the choice to sit it out or dance

I hope you dance

I hope you never fear those mountains in the distance
Never settle for the path of least resistance
Livin’ might mean takin’ chances, but they’re worth takin’
Lovin’ might be a mistake, but it’s worth makin’
Don’t let some Hellbent heart leave you bitter
When you come close to sellin’ out, reconsider
Give the heavens above more than just a passing glance
And when you get the choice to sit it out or dance

I hope you dance (Time is a wheel in constant motion always rolling us along)

I hope you dance (Tell me who wants to look back on their years and wonder where those years have gone?)

Dance

I hope you dance

Composição de Tia Sillers e Mark Sanders

Música gravada por Lee Ann Womack, ganhou o Prêmio Grammy da Melhor Música Country e também o Prêmio Country Music pela Canção do Ano (2000). Atingiu o número um nas listas de Hotboard Country e Hot Adult Contemporary Tracks e também atingiu o número quatorze no Billboard Hot 100. Em 2004, o cantor, compositor e filantropo irlandês Ronan Keating lançou uma versão que atingiu o número 2 no Reino Unido. Ronan Keating é ativo no trabalho de caridade e tem sido um ativista para a Fundação Marie Keating, que conscientiza sobre o câncer de mama e leva o nome de sua mãe, que morreu da doença em 1998. Foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da ONU pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.


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Tradução: Eu Espero Que Você Dance Continuar lendo

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